Almoço de cinema, entre o clássico e o clichê

Todo mundo tem uma visão prévia de um restaurante tradicional bem no estilo americano, os chamados Diners, com um modelo prefabricado, quase o equivalente americano dos bistrôs franceses. Por causa da influência do cinema e da TV, provavelmente vai ser algo como se via em Seinfeld, por exemplo, com mesas grudadas na parede, um banco de cada lado, como se fossem cabines (as chamadas booth), um cardápio variado de sanduíches, saladas e panquecas e aquela indefectível garçonete que vem encher sua xícara de café regularmente.

A Fachada do Cozy, aberto na Broadway em 1972

Os primeiros Diners dos Estados Unidos, com este mesmo modelo de cabines e balcão, foram criados no final do século XIX, aqui na Costa Leste do país. Foram os imigrates gregos que tornaram o estilo popular, na metade do século passado, segundo o “New York Times”, que estima que ainda existem cerca de mil estabelecimentos assim na região metropolitana de Nova York. O projeto deles era ter um cardápio variado, que agradasse a todo mundo. Segundo o dicionário, trata-se de um restaurante no formato de um vagão de trem, de onde o nome teria originado (como dining car). A descrição mais perfeita, no entanto, é a dos Diners em geral encontrada na página que reúne uma base de dados sobre estes restaurantes no país. Além do molde prefabricado, “um Diner serve comida despretensiosa, caseira, a preços razoáveis, e geralmente é operado pela família que é dona.”

Canja de galinha servida no Famous Cozy

O Monstro esteve num lugar assim em 2008, em Chicago, onde tomou o café da manhã mais “típico”, dentro do clichê americano. Cosmopolita demais, Manhattan não tem mais tantos lugares como estes que o cinema sempre mostrou, e muitos são, como diria um americano com quem conversei, apenas um simulacro de realidade. Mesmo assim, há as excessões, como ilhas de tradição no meio da cidade moderna.

O Diner por dentro, um clássico e um clichê ao mesmo tempo

No domingo do ano novo chinês, celebrando o início do ano do Tigre, os restaurantes de Chinatown, onde se planejava almoçar, ou estavam muito lotados ou, por ser feriado para os chineses, fechados. Foi depois de andar por uma meia hora rumo a uptown já no West Village, que o Cozy, representante deste tipo de restaurante à americana, com suas quatro décadas de funcionamento, foi encontrado.

Sopa de cebola à francesa

Ambiente um tanto desleixado, atendimento corrido, serviço rápido e preços baixos fazem a frente da comida bem simples, mas gostosa servida lá. O lugar é daqueles que não tem um chef, nem um cardápio pensado como filosofia, mas que oferece a comida boa sem nada muito especial, mas sem frescuras também.

A crítica geral sobre o restaurante, que na verdade se chama Famous Cozy Soup ‘n Burger, é ambígua. A revista “New York” não foi nada compreensiva com o estilo “antigourmet” do cardápio, dos hambúrgueres e das sopas, atacadas duramente. No site do Zagat, principal guia só de restaurantes da cidade, os clientes rasgam elogios a tudo o que há no lugar. Além de barato, ele funciona 24 horas, e entrega em casa.

Panquecas com blueberry, para o café da manhã, sobremesa, ou simplesmente para matar a vontade

O Monstro não procurava nada muito especial, e dentro da simplicidade oferecida, adorou o Cozy. Como não havia apetite para hambúrguer, a opção foi a outra especialidade: sopas. A escolhida foi a de cebola “francesa”, forte, usando caldo de carne, ela vem com pedaços de pão crocantes e queijo gratinado por cima. Forte, mas deliciosa. A esposa foi de canja de galinha, bem simples, mas também boa. Cada uma custou menos de U$ 6 numa proposta melhor de que parte das sopas de potinho encontradas na cidade.

De complemento e sobremesa, o pedido foi um prato de panquecas com blueberry. A massa da panqueca americana é mais grossa, macia e aerada que a encontrada no Brasil (que lembra mais os crepes franceses, na verdade). As frutinhas vêm derretidas dentro da massa das panquecas, que ficam ainda melhores com o xarope de maple, que é bem menos doce de que um mel normal ou calda. A porção com 3 panquecas custou quase US$ 9.

Mais café, por favor

Um dos motivos da “fama” do Cozy, que leva o lugar a ter fotos de atores com seus autógrafos, é que era lá que trabalhava o personagem de Rob Schneider, que era meio burrinho, na verdade, no filme “O Paizão”. No site do restaurante tem até um vídeo do filme em que é possível ver o crachá dele com o nome do restaurante.

Rob Schneider, à esquerda, com crachá do restaurante, em cena do "Paizão"

Ah, e nesse almoço rápido no domingo teve, claro, o café, ralo e fraco como em todo restaurante americano que não serve espresso, sendo enchido a cada vez que o nível baixava um pouco.

Serviço:
The Famous Cozy Soup ‘n Burger
739 Broadway, at Astor Pl.
New York, NY 10003
212-477-5566
Site

Lista de Diners Clássicos pelos EUA

Leia também:

História dos Diners no NYT
New York Magazine

Zagat

Village Voice

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3 Respostas para “Almoço de cinema, entre o clássico e o clichê

  1. Apenas um detalhe… Adoraria uma analisada dos steaks dos diners, uma onipresenca nos cardapios e uma frequente fonte de decepcao…

  2. Pingback: Crepes americanos « Monstro na Cozinha

  3. Pingback: Em busca do hambúrguer perfeito 5 – Surpresa casual « Monstro na Cozinha

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