Um ‘nazi’ domado pelo marketing

A ideia do “fale mal, mas fale de mim” nunca foi tão verdadeira e com resultado tão positivo quanto no caso de uma pequena loja de sopas de Nova York. O proprietário foi retratado em uma das séries de TV mais populares de todos os tempos como um tirano, uma pessoa detestável, mas que fazia ótimos caldos, e assim se criou a lenda do Soup Nazi, o nazista da sopa nova-iorquina, que se espalhou pelo país com grande popularidade e nada de restrições no serviço.

Sopa de galinha com macarrão no Original Soup Man do East Village

O personagem da série era um imigrante mal humorado, cuja sopa só era servida se os clientes seguissem estritamente suas regras. Pedir rápido, de forma direta, pagar e sair, sem tempo para pensar, sem espaço para reclamação. Qualquer falha era respondida com um “nada de sopa para você”, e o cliente era banido, perdendo a chance de experimentar as deliciosas sopas. Mesmo com toda a rigidez, sempre havia filas na frente do local.

A marca da sopa, com o dono de cara fechada com inspiração no soup nazi

Isso foi em 1995, quando Jerry Seinfeld fez um episódio inspirado no restaurante Soup Kitchen International, que existia desde 1984, ficava em Midtown e era reconhecido na cidade como a melhor sopa de Nova York. O humorista, entretanto, não ia somente elogiar a comida servida, claro, e usou o tema para ironizar o mau humor e o excesso de regras do proprietário do local, chamado de “nazista das sopas”.

O Soup Nazi no episódio de Seinfeld de 1995

Al Yeganeh, o “nazi” que inspirou o personagem, odiou a homenagem, protestou contra Seinfeld, alegou que ele tinha “destruído sua vida pessoal” e, segundo alguns relatos, soltou até um “no soup for you” para o comediante. Esse é o “fale mal…”.

As sopas são servidas em potinhos, com colheres de plástico e acompanhadas de pão, sem ter que pagar U$ 2 a mais, como George Constanza foi cobrado no episódio

O lado do “…mas falem de mim” é que Seinfeld tornou Al Yeganeh muito mais famoso de que ele jamais seria, divulgando sua história por todo o mundo. E eis que, depois de fechar seu restaurante original algum tempo após a série, o “sopeiro” voltou à cena nova-iorquina em 2005, dentro de um projeto megalomaníaco para ter mais de mil pontos de venda para sua sopa em todo o país.

Ele não admite publicamente que seu apelido criou uma demanda por suas sopas, e ainda proíbe que jornalistas façam perguntas sobre o que chama de “the N Word” (a palavra com N, em referência ao nazi), mas sua marca agora é “The original Soup Man”, e dentro dos restaurantes há reportagens de jornais que fazem referência ao episódio de Seinfeld, que também é mencionado no site dele. A própria logomarca, que inclui uma foto do próprio Al Yeganeh com a cara amarrada, de raiva, pode ser vista como referência ao Nazi.

O Monstro visitou um dos pontos de venda da sopa do nazista em Downtown Manhattan no início desta semana. Já passava das 21h, e o local vivia um lima de fim de festa, com apenas 4 opções das mais de 10 que haviam desde a manhã disponíveis. Dentro da pequena lanchonete havia dois funcionários e nenhum controle sobre a forma de pedir, mostrando que os tempos das regras ficaram para trás. Na parede, uma fotografia da época da inauguração menciona 40 minutos de fila para se servir, deixando claro que a demanda pela sopa do nazista continuava alta.

A sopa mais atraente naquela hora era uma das mais simples, um caldo de galinha com legumes e macarrão. O horário tardio fez com que a massa estivesse mais mole de que o esperado, mas o tempero da sopa, a quantidade de carne e legumes deixavam claro que o preparo era feito com cuidado, trazendo uma boa sopa. O processo atualmente é menos artesanal e mais de produção em massa, o que tira um pouco o destaque que podia merecer originalmente. Cada pote grande custa em torno de U$ 6.

Nova York tem um grande apetite por sopas como alternativa especialmente nos almoços e no inverno. O Monstro falou sobre isso logo em sua primeira semana, quando conheceu a rede Hale and Hearty, que provavelmente é a maior marca de sopas na cidade, espalhada de um canto a outro e com ótimos caldos. Lá e na hora do almoço, mesmo sem ninguém mal humorado para atender, é preciso seguir as regras de velocidade divulgadas pelo Soup Nazi para poder não atrapalhar quem passa correndo no intervalo do trabalho.

A sopa de Al Yeganeh atualmente pode ser encontrada em quase todo o país, em formatos industrializados ou servidos quentes na hora. Em entrevista ao New York Times em 2005, ele alegou que controla toda a produção em uma única central, e que sua principal preocupação era a limpeza. De fato, a sopa do lugar é boa, mas o processo industrial em larga escala, o suposto controle de higiene e o marketing para vender mais tomaram o lugar da qualidade da sopa caseira servida com mau humor e muito mais sabor.

Serviço:
The Original Soup Man

Leia também:

Seinfeld sobre o Soup Nazi

NYT

NY MAG

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s