Arquivo do mês: junho 2010

Pé na areia de Manhattan

Um pedaço do sul da ilha de Manhattan costuma ser comparado a Miami. Com uma rua fechada para trânsito formada por lojas e restaurantes de todos os lados e um pequeno shopping entrando pelo East River na ponta, o Píer 17 tenta criar uma pequena praia no meio da cidade. O clima montado é totalmente artificial e chega a ser engraçado, mas a verdade é que sentar no bar que simula praia com areia no chão e coqueiro artificial e combater o calor com uma cerveja pode ser uma experiência deliciosa.

A praia artificial do Píer 17

O Píer  é o ponto de partida dos passeios de barco em torno de Nova York. Ali é possível ver centenas de turistas em grandes grupos sendo levados como gado de um lado para o outro, e finalizando o tour com tempo livre para ir nas lojinhas de suvenires da região.

Bares do Píer

Mas o lugar também serve para comer, mesmo que não seja um ponto exatamente valorizado pela alta gastronomia. O próprio bar de praia oferece comidas básicas, como sanduíches e batatas fritas, que acompanham bem as cervejas.

Região de onde saem os passeios de barco do Píer 17

A maior parte dos restaurantes de verdade fica do lado sul do píer. Eles disputam os turistas com ofertas de preços baixos e cardápios com frutos do mar, mas nenhum deles merece uma menção mais honrosa da crítica gastronômica. Dentro do pequeno shopping, há uma praça da alimentação com opções mais ligadas à fast food e a preços mais baixos.

A parte de cima do Píer

A região do South Seaport, como são conhecidos o píer e a rua, fica no mesmo lugar em que existiu um dos primeiros e mais importantes mercados de comidas de Nova York, o Fulton Market, e do lado de uma enorme peixaria antiga, mas a região se condolidou atualmente só como shopping realmente.

Praça da alimentação dentro do shopping

O Píer 17 pode não ser o melhor lugar para comer bem, ou para conhecer a verdadeira Nova York, mas oferece um clima bem agradável e divertido para quem decide enfrentar a Miami local por uma tarde.

A rua fechada para trânsito do South Seaport, um pedaço de Miami em NY

Serviço:
South SeaPort

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Aristocracia de restaurantes

A cena gastronômica de Nova York é dominada por uma pequena aristocracia. Uns poucos chefs e empresários detêm a propriedade dos restaurantes mais relevantes da cidade e levam quase todos os prêmios locais e internacionais voltados à comida, deixando pouco espaço para pequenos empreendedores.

Por um lado, investidores inteligentes fazem negócios de forma inteligente e inauguram restaurantes de temas e sabores variados contratando os melhores chefs e administradores para coordenar o trabalho – é o caso de Keith McNeelly e Danny Meyer, cada um com uma dezena de restaurantes. Por outro, sempre que algum chef faz sucesso com seu restaurante, é normal ele abrir outros em uma rede similar, repetindo a fórmula a fim de aproveitar a atenção positiva – como acontece com David Chang e Mario Batalli. Para completar o domínio de grandes nomes da gastronomia, os poucos outros restaurantes “independentes” que conseguem fazer muito sucesso e serem premiados muitas vezes são parte de projetos multinacionais, como acontece com Thomas Keller, Nobu e Gordon Ramsay.

Parte disso é causada pela grande demanda de Nova York por bons restaurantes, e parte pelo fato de os nova-iorquinos serem acomodados e mimados, e quererem os melhores restaurantes em sua esquina, buscando não ter que se deslocar pela cidade. Existe demanda para cada vez mais restaurantes, mas eles podem ser menores e ter várias sedes espalhadas em diferentes bairro.

O “Wall Street Journal” diz que Danny Meyer é tão poderoso quanto o prefeito da cidade, Michael Bloomberg. Com onze “palácios” espalhados por Manhattan, Meyer domina o paladar nova-iorquino com comidas variadas que vão desde o simples cachorro-quente, ou do hambúrguer, até a mais refinada alta gastronomia de restaurantes premiados internacionalmente.

Danny Meyer é o “dono” do Union Square Hospitality Group, empresa que de fato assume a responsabilidade por tantos restaurants premiados. São dele as lanchonetes da rede Shake Shack, que estão se espalhando pela cidade com um hambúrguer simples e gostoso que costumava formar filas de até uma hora na Madison Square. O foco ali são milk shakes, cachorros-quentes e especialmente hambúrgueres. O sanduíche de fato é gostoso, mas caiu num clima de ser considerado por várias pessoas o melhor da cidade, criando um marketing sem tamanho para ele e gerando necessidade e mais lanchonetes.

Meyer tem também o 11 Madison Square, restaurante estrelado pelo guia Michelin e que ficou em 50º lugar na lista de melhores restaurantes do mundo da revista “Restaurant”. Ele tem também os restaurantes e cafés do Museum of Modern Art, incluindo o excepcional The Modern, com comida deliciosa e delicada a preços altos, mas acessíveis.

Completam a rede dois favoritos dos nova-iorquinos que acabam não ganhando tanta atenção de turistas: O Gramercy Tavern e o Union Square Café. Mais simples e com uma cozinha refinada, mas não em excesso, esses dois restaurantes costumam ficar em primeiro e segundo lugar na avaliação dos leitores e críticos independentes do guia Zagat, muitas vezes chamado de bíblia da gastronomia da cidade.

Não acredita? Então olha aí também…
WSJ faz tou por todos os restaurantes de Meyer

O empreendedor de estrelas e o hambúrguer perfeito

Ele não é chef de cozinha, não inventa pratos, não mexe no cardápio, não usa avental sujo e ainda assim é uma das pessoas mais poderosas da gastronomia de Nova York. Onde Keith McNally vai, a nata do poder político, econômico e cultural da Grande Maçã vão atrás, assim como os turistas que visita a cidade. McNally coleciona fãs entre os clientes e divide opiniões entre os críticos, arrecadando ataque a alguns de seus empreendimentos e elogios efusivos a outros.

Keith McNally, durante as obras para montar sua pizzaria, Pulino, aberta em 2010

É dele um dos restaurantes mais badalados pelos guias de turismo, o bistrô francês Balthazar, assim como a padaria deste restaurante e seu “concorrente” pelo sabor francês, o Pastis. Também é dele o italiano Morandi, a pizzaria Pulino e alguns bares, assim como leva sua assinatura o retrô Minetta Tavern, que o crítico do “New York Times” diz ter a melhor carne da cidade e a “Time Out” diz ter a melhor comida nova-iorquina, elegendo o hambúrguer dali como o que há de mais importante em toda Nova York.

O hambúrguer Black Label do Minetta Tavern, melhor comida da cidade segundo a revista "Time Out" (foto da Time Out)

Nascido em Londres, McNally se mudou para os Estados Unidos em 1975 querendo se tornar diretor de teatro. O projeto não deu certo e ele acabou escalando a hierarquia de restaurantes e se tornando muito popular por sua coleção de amigos “importantes” no mundo da moda e do entretenimento. Quando abriu seu primeiro restaurante, o Odeon, o público foi atrás dele, e tem feito isso a cada novo empreendimento.

Por mais variados que sejam os perfis dos restaurantes dele, os projetos de McNally sempre criam uma atmosfera teatral, como se transportasse o comensal a um outro mundo. Com serviço impecável e comida minimamente boa em todos os restaurantes, ele se consolida como um investidor ativo, sempre de olho em novos negócios. Ele “combina em seus restaurantes o equivalente de grande bilheteria de cinema com séria fidelidade dos foodies”, diz Frank Bruni, do New York Times. Não são necessariamente os melhores restaurantes da cidade, mas são ótimos restaurantes com um público maior de que os mais premiados.

O Monstro visitou alguns dos restaurantes de McNally, e também encontrou situações dúbias. Por mais frustrado que tenha ficado no Balthazar, que lhe parece sobrevalorizado, ficou impressionado muito positivamente com o Minetta Tavern, restaurante inaugurado em 2009 na região da rua Bleecker, em Downtown.

O Minetta Tavern havia entrado na lista de restaurantes a serem conhecidos porque a “Time Out” dizia que o hambúrguer Black Label servido ali era melhor de que qualquer outra comida servida na cidade. Mas o restaurante é mais de que o sanduíche, e cria um clima agradável, com boas opções no cardápio a preços relativamente acessíveis. Um jantar para duas pessoas, incluindo duas taças de vinho, fica em torno dos U$ 70, nada absurdo para uma ótima refeição. E o hambúrguer, realmente está bem à frente de outros bons experimentados na cidade.

O aclamado hambúrguer, entretanto, tem um dos preços mais altos da cidade. Custa U$ 26, mas impressiona por ser completamente diferente e muito superior a qualquer outro hambúrguer bom encontrado em NY, tendo sérias chaces de ser o melhor do mundo. Ele é preparado com carnes especiais “envelhecidas” que ficam mais curadas naturalmente em refrigeradores e ganham um sabor mais acentuado. É o mesmo tipo de carne usada na churrascaria Peter Luger, e assim como lá, é possível perceber uma textura e um sabor bem diferentes dos que o paladar brasileiro está acostumado. Bem mais intenso e saboroso.

É servido em uma peça mais alta que o normal e muito suculenta, com uma carne que se diferencia dos outros hambúrgueres. Vem acompanhado de cebola caramelizada e salada, além de batatas fritas, e é surpreendente.

Ah, vale lembrar que o Minetta Tavern não abre para o almoço durante a semana, só para jantar desde as 17h30 ou nos brunches de fim-de-semana.

Não acredita? Então olha aí também…

Frank Bruni do NYT sobre o Minetta

NY MAG sobre abertura do Pulino

Iogurte anticalor

Algumas lojas de Nova York disputam um nicho um pouco mais especializado das sobremesas geladas para combater o calor de mais de 40 graus que ataca a cidade no verão. Surfando na popularidade da alimentação saudável e na preocupação com as calorias de sorvetes mais cremosos, redes de iogurte congelados crescem a cada temporada de calor em Nova York, oferecendo produtos interessantes, e sempre acompanhados de frutas e doces que tornam as sobremesas mais atraentes e gostosas.

Frozen yogurt com frutas na rede Pink Berry, a mais forte da cidade

Todos os anos o “New York Times” publica uma reportagem parecida a respeito da competição dessas redes de frozen yogurt e da realidade por trás dessa sobremesa. Por mais que a briga tenha surgido oficialmente na Califórnia, em Nova York a disputa inclui batalha judicial e briga pessoal entre as lojas, e até entre alguns dos fãs delas.

O iogurte simples da rede Red Mango

A disputa principal é entre as redes Red Mango, que tem origem na Coreia, e Pink Berry, da Califórnia. A segunda é mais antiga e mais forte, mas começou a ser ameaçada pela rede internacional. As duas são muito parecidas, oferecendo poucos tipos de iogurte congelado, cremoso e pouco doce, acompanhado por coberturas de frutas e doces. Até o preço delas é parecido, em torno de U$ 4 por porção. O Pink Berry costuma formar mais filas na St. Marks Place, rua em que as duas ficam frente à frente, mas os clientes muitas vezes atravesam a rua para comer o Red Mango com qualidade parecida e menos fila.

Uma opção mais barata e de autoserviço de iogurtes congelados e coberturas

O frozen yogurt é uma invenção surgida nos anos 1970, que a princípio não conquistou os paladares por causa do seu sabor pouco doce, como um iogurte natural. Com o tempo, entretanto, as pessoas se encantaram em poder tomar algo gelado e cremoso sem o lado negativo de gordura do sorvete mais tradicional, e as vendas do iogurte cresceram 200% por ano entre os anos 1980 e os 1990, chegando a vender mais de 400 milhões de litros por ano. Com a chegada dos sorvetes light, menos calóricos, a média anual caiu para 250 milhões de litros, o que ainda é bastante coisa.

Atualmente, além das redes que disputam a liderança e que têm lojas espalhadas pela cidade, há opções mais baratas e que permitem um esquema de self service, em que o cliente escolhe os sabores e as coberturas e paga por peso. Os iogurtes dessas lojas costumam ser mais doces e menos saborosos, parecendo mais um sorvete sem graça. Mas as grandes redes têm ótimos sabores para refrescar o calor sem se entregar a sorvetes.

Não acredita? Então olha aí também…
NYT sobre a briga de marcas

Algumas lojas de Nova York disputam um nicho um pouco mais especializado das sobremesas geladas. Surfando na popularidade da alimentação saudável e na preocupação com as calorias de sorvetes mais cremosos, redes de iogurte congelados crescem a cada temporada de calor em Nova York, oferecendo produtos interessantes, e sempre acompanhados de frutas e doces que tornam as sobremesas mais atraentes e gostosas.
Todos os anos o “New York Times” publica uma reportagem parecida a respeito da competição dessas redes de frozen yogurt e da realidade por trás dessa sobremesa. Por mais que a briga tenha surgido oficialmente na Califórnia, em Nova York a disputa inclui batalha judicial e briga pessoal entre as lojas, e até entre alguns dos fãs delas.

A disputa principal é entre as redes Red Mango, que tem origem na Coreia, e Pink Berry, da Califórnia. A segunda é mais antiga e mais forte, mas começou a ser ameaçada pela rede internacional. As duas são muito parecidas, oferecendo poucos tipos de iogurte congelado, cremoso e pouco doce, acompanhado por coberturas de frutas e doces. Até o preço delas é parecido, em torno de U$ 4 por porção. O Pink Berry costuma formar mais filas na St. Marks Place, rua em que as duas ficam frente à frente, mas os clientes muitas vezes atravesam a rua para comer o Red Mango com qualidade parecida e menos fila.

O frozen yogurt é uma invenção surgida nos anos 1970, que a princípio não conquistou os paladares por causa do seu sabor pouco doce, como um iogurte natural. Com o tempo, entretanto, as pessoas se encantaram em poder tomar algo gelado e cremoso sem o lado negativo de gordura do sorvete mais tradicional, e as vendas do iogurte cresceram 200% por ano entre os anos 1980 e os 1990, chegando a vender mais de 400 milhões de litros por ano. Com a chegada dos sorvetes light, menos calóricos, a média anual caiu para 250 milhões de litros, o que ainda é bastante coisa.

Atualmente, além das redes que disputam a liderança e que têm lojas espalhadas pela cidade, há opções mais baratas e que permitem um esquema de self service, em que o cliente escolhe os sabores e as coberturas e paga por peso. Os iogurtes dessas lojas costumam ser mais doces e menos saborosos, parecendo mais um sorvete sem graça. Mas as grandes redes têm ótimos sabores para refrescar o calor sem se entregar a sorvetes.

Comida na rua

Almoço de nova-iorquinos é só um lanche rápido, comido na rua, com pressa para acabar e voltar logo ao trabalho. Enquanto no jantar os restaurantes da cidade ficam apinhados de gente em busca de comida boa servida com calma, no meio do dia eles buscam só matar a fome de forma simples e veloz. Os restaurantes até ficam mais baratos ao longo da tarde para tentar atrair mais gente, mas quem faz mais sucesso com os locais na hora do almoço são os carrinhos que vendem comida no meio da rua, que quase levam a comida até seus clientes apressados.

Fila para comer a comida de rua do Calexico, o carrinho itinerante mais na moda de Nova York

O que pode ter começado com as carrocinhas de cachorro-quente, depois ganhou espaço com dezenas de carroças especializadas em comida árabe, se especializou e virou um ramo paralelo aos dos restaurantes, com carrinhos extremamente bem equipados, cardápio bem planejado e variado, comida preparada de forma profissional, grande disputa e um público cada vez mais fiel. Em todas as partes da cidade é fácil ver esses pequenos caminhões entre o meio dia e as 15h. Eles ficam parados na calçada, servindo a clientes que chegam a formar longas filas.

O Bistro Truck, com comida árabe da região do mediterrâneo

É possível encontrar de tudo nesses carrinhos. Tem hambúrguer, comida mexicana, Cal-Mex, mediterrânea, doces, comida japonesa, churrasco, uma variedade incrível. Cada van muda de lugar todos os dias, e as redes sociais na internet servem para divulgar a cada dia onde encontrar esses carros de comida. O site findnycfoodtrucks.com é um bom começo para saber onde vai estar cada tipo de comida itinerante, mas o mais legal é se deparar com algo que não se espera, de preferência sem fila, para poder comer algo relativamente simples, rápido e a preço acessíveis.

No meio da rua, o Calexico prepara as comidas passo a passo com cuidado e muita qualidade

Uma das vans mais concorridas em 2010 era a Calexico Carne Asada, especializada na versão californiana da comida mexicana, servindo birritos, tacos e quesadillas com mais qualidade de que muitos restaurantes especializados da cidade. O único problema é que a moda é tão grande que na hora do almoço não é estranho ter que esperar por até mais de meia hora, no sol, para poder comer a comida do Calexico, o que quebra o valor de comida rápida. Por outro lado, com uma minichurrasqueira, eles assam as carnes na brasa e na hora, preparando comida muito saborosa no meio da rua.

A quesadilla de carne do Calexico, considerada uma das melhores da cidade

O que mais há, entretanto, são as barracas de comida halal, e o tempero árabe é um dos que mais se sente nas ruas da cidade. São pratos e sanduíches com galinha e carneiro, tudo por cerca de U$ 5. A comida não chega a ser excepcional, mas é interessante e fácil de achar, comer e voltar para casa. Uma das vans especializadas, o Bistrô Truck, tenta fazer uma comida árabe mais mediterrânea e bem cuidada. Eles oferecem por U$ 11 um prato gigante com um pouco de cada tipo de carne (boi, galinha e carneiro), arroz, cuscuz e salada.

Prato misto do Bistro Truck

Como o trabalho desses carros é especialmente durante a semana, vez por outra há eventos de fim de semana que reúne vários desses carrinhos para que seja mais fácil conhecer e experimentar cada um deles. O único problema é que esses eventos podem reunir gente demais, como aconteceu outro domingo no Hell’s Kitchen. Cada fila demorava mais de 40 minutos, no sol, o que tornava menos agradável o evento gastronômico.

Fila para comer comida itinerante em evento no Hell's Kitchen, bairro do west side de Manhattan

Comer na rua pode ser uma das melhores formas de economizar dinheiro e ao mesmo tempo mergulhar no estilo de vida nova-iorquino, por mais que seja abrir mão da hora em que os melhores restaurantes estão mais vazios e cobrando preços mais baixos de que à noite.

Vans de comida no Hell's Kitchen

Delícia de clichê

Um dos principais clichês do turismo e da culinária nova-iorquina é, de verdade, uma das coisas mais gostosas da cidade. O sanduíche de pastrami em pão de centeio vendido na Katz Delicatessen é absurdamente delicioso, suculento, com a carne que se desfaz. E vale a pena enfrentar toda a confusão de um ambiente tão turístico para experimentá-lo. É algo que foge da tradição de importar sabores que faz parte de Nova York, e sim um prato bem característico da cidade, por mais que também seja fruto de influência internacional.

O sanduíche de pastrami da Katz: perfeito

O sanduíche de pastrami é um dos pratos mais representativos de Nova York e a lanchonete é um dos principais exemplos de delicatessens criadas pelos judeus que imigraram para os Estados Unidos, escolhendo fixar raízes na Grande Maçã. Calcula-se que 2 milhões de judeus tenham se mudado para os Estados Unidos até 1924 e que um milhão deles viviam na cidade no ano 2000, e eles chegaram trazendo sua cultura, que se adaptou à cidade criando pratos bem locais com a cara deles.

O cardápio da lanchonete, que tem atendimento com garçom para quem senta nas mesas da parede

As delicatessens se tornaram a casa comum da comunidade judaica em Nova York ao longo do século XX. Por definição, trata-se de um lugar que vende comidas, especialmente carnes, lingüiças, temperos e saladas que faziam parte da cultura deles. Comida simples, familiar montada com a cultura deles e os ingredientes locais, respeitando as regras da religião, mas sem ser fanático e permitindo também a mistura mais livre de ingredientes. Desde a chegada dos imigrantes, a região do Loewr East Side entre as ruas Houston e Delancey se tornou o lugar central das “delis” – até hoje há dezenas de lugares especializados nesta comida por ali, por mais que haja casas similares em outras partes da cidade.

O ambiente interno, cheio a qualquer hora do dia

Entre as especialidades levadas das pelos judeus europeus para Nova York estava o pastrami, um preparo de carne de origem romena, que é temperada e curada, depois assada ou cozida, fatiada e servida com sanduíche. No Brasil até é possível achar fatias de pastramis na parte de frios de supermercados, mas não é nada que se pareça nem um pouco com o que é servido em delis como a Katz.

Um knishe, bolinho frito de batatas

A Katz é a mais famosa das delis há algumas décadas. Fundada no final do século XIX na avenida Houston, ela já era muito popular entre a população local, e se tornou um fenômeno global de turismo depois que a lanchonete apareceu no filme “Harry e Sally”, com Meg Ryan fingindo um orgasmo em público. Atualmente, o lugar vive cheio de locais acostumados com o sabor da comida dali há anos e de turistas que chegam para visitas rápidas e não podem ficar sem passar ali.

Egg cream, bebida bem nova-iorquina: leite achocolatado com gás

O lugar é uma bagunça. Apesar de grande e com muitas mesas, vive cheio e com filas. A melhor alternativa para quem não quer enfrentar a confusão de fazer o pedido no balcão, a melhor alternativa é sentar numa das mesas próximas à parede, onde há serviço de garçons (a diferença é ter que pagar gorjeta).

Bagel com cream cheese e lox, o salmão defumado judaico

O cardápio é formado por sanduíches e pratos da culinária judaica. Há knishes, que sçao bolinhos fritos de batata, sopas, pratode café da manhã, bagels e osa sanduíches preparados com estes pães redondos, cream cheese e o salmão defumado que eles chamam de Lox. O Katz serve ainda uma bebida bem nova-iorquina, o egg cream, que apesar do nome, não tem nada de ovo e é um leite com chocolate gasoso (misturado com água com gás) que fica interessante e diferente, menos doce de que se pode esperar.

De novo o sanduíche de salmão em bagel

A principal atração, entretanto, é o sanduíche de pastrami em pão de centeio, que visualmente lembra o sanduíche de mortadela do mercado municipal de São Paulo, de tanto recheio, mas que é muito mais gostoso. Ele custa US$ 15, e é imenso e delicioso. A carne curada é assada longa e lentamente, para ficar bem cozida, suculenta e macia. O sabor é excepcional e bem diferente, as fibras quase de desfazem na boca. É impressionante e delicioso, valendo a pena experimentar mesmo que em alguns momentos pareça uma daquelas opções mais turísticas de que boas. É um lugar muito badalado e de fato é espetacular. É clichê, mas quem viaja, assim como quem escreve, uma hora ou outra precisa aceitar o clichê como parte da vida.

O delícioso sanduíche de pastrami

NY sem saudade de casa

Quando bate uma saudade da comida de casa, os brasileiros também não precisam sofrer pela falta de um feijão com arroz, um pão de queijo, uma feijoada, um estrogonof, um bife à milanesa ou mesmo uma moqueca. As principais comidas da gastronomia cotidiana do Brasil podem ser encontrados em uma dúzia de restaurantes “brasucas” de Nova York.

As churrascarias em sistema de rodízio costumam ser os restaurantes brasileiros que recebem mais atenção dos críticos americanos. Eles se encantam do o sistema de carne à vontade e divulgam esse mergulho em toneladas de carne como uma experiência maravilhosa. A mais tradicional da cidade é a Churrascaria Plataforma, inaugurada em 1996 e que fica em Midtown.

Feijão e arroz para matar saudade de casa

Por muito tempo era na rua 46, em Midtown, que se encontravam os principais lugares da comida e da cultura brasileira em Manhattan. Nos últimos anos, a rua que tem o título de “Little Brazil” tem se descaracterizado, se tornado mais misturada e menos autenticamente brasileira. Ainda há dois ou três restaurantes e bares com temas brasileiros, que podem servir de alternativa para matar a saudade de casa sem gastar muito dinheiro e sem esperar nada de excepcional.

Cozinhas de galinha com tempero bem mais picante que o que se conhece no Brasil

Os restaurantes mais relevantes de comida brasileira atualmente, entretanto, estão espalhados pela cidade e pela região perto dela. Em Newark, cidade de nova Jersey que fica a 20 minutos de trem de Manhattan, há uma das maiores comunidades de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos, que têm vários bares e restaurantes bem autênticos. No Queens, em Astoria, se concentram os brasileiros de Nova York, com lugares menos badalados e mais baratos e tradicionais para a comunidade.

Bife à milanesa com batata frita

E no Brooklyn fica o restaurante brasileiro mais na moda de Nova York. É o Miss Favela, misto de boteco e restaurante que fica na base da ponte de Williamsburg e eu serve comida brasileira tanto para os brasucas quanto para os americanos empolgados com a cultura do Brasil. A dona do lugar é uma carioca casada com um francês, e dá para percerber que o cardápio puxa mais para o lado do Rio de Janeiro.

Pudim de leite de sobremesa (parecendo mais um flan, na verdade, com textura pouco densa)

O Miss Favela costuma lotar nos finais de semana, quando tem grupo de pagode e feijoada. No verão fica um clima de festa, com o povo bebendo e comendo na calçada, um monte de gente dançando. A comida é boa, e brasileira de verdade, com feijão e arroz de acompanhamento para carnes, pão de queijo e coxinha de galinha (com tempero mais apimentado que o normal) de entrada. Os preços das comidas são acessíveis e os pratos até podem ser divididos. O problema são as bebidas, com caipirinhas de U$ 8, que tornam quase impossível para os imigrantes que têm salários mais limitados.