Arquivo do mês: julho 2010

Run, tourist, run

A Times Square é o paraíso dos turistas e dos restaurante em estilo casual diner, com temas característicos, comida plastificada e sem muita graça a preços relativamente baixos – refeições familiares para os milhões de viajantes norte-americanos que são a maior parte das pessoas que passam por ali todos os anos. Em poucos quarteirões, reúnem-se Friday’s, Applebees, Planet Hollywood, Hard Rock Café, Red Lobster, Ruby Tuesday, Olive Garden e o Bubba Gump. Em todos eles é possível ter refeições minimamente respeitáveis por menos de U$ 30 por pessoa, mas nenhum oferecerá nada absurdamente memorável.

Cada mesa do Bubba Gump tem uma plaquinha com tema do filme que é usada para chamar a atenção dos garçons

Algumas dessas redes internacionais de restaurantes padronizados são grandes e têm lojas até no Brasil, mas outras são menores. Um dos que é mais a cara da praça onde ficava o jornal “New York Times” no passado é também um dos restaurantes de temas mais bizarros, o Bubba Gump. O estranho dele é que o tema escolhido foi o filme Forrest Gump, que inspira o nome do restaurante, sua decoração, o cardápio e até o atendimento. O lugar é tão voltado a turistas que todo mundo que chega no restaurante é recebido com boas vindas acompanhadas de uma pergunta sobre olugar onde vivem, já que nenhum nova-iorquino vai lá.

Toda a decoração segue temas relacionados ao filme Forrest Gump

O Bubba Gump tem mais de 30 lojas espalhadas por diferentes países, especialmente os Estados Unidos. A rede foi criada em 1996, dois anos após o lançamento do filme, e tira o nome da parceria entre o personagem principal e seu amigo Bubba, que aparece no filme falando sobre a tradição de pesca de camarão e as formas de preparar o crustáceo. Daí sai a maior parte do cardápio do restaurantes, que se diz especializado em camarão e tem isso em quase todos os pratos. A empresa dona da rede alega que a ideia de abrir os restaurantes veio do estúdio que lançou Forrest Gump, e por isso todos os temas do Buba Gump têm a licença de serem relacionados com o filme.

O prato com camarões grelhados, linguiça e purê, mais bonito de que bom

Para quem apenas está no centro turístico de Nova York e quer comer bem, por mais curioso que pareça ao tema do Bubba Gump, a preocupação deles é mais com a ligação com a história do filme de que com a qualidade da comida em si. Muitos pratos até soam interessantes, mas a comida não passa de regular.

O Monstro visitou o restaurante e experimentou um prato em que randes camarões eram grelhados na churrasqueira e servidos com purê de batatas, linguiças francesas e um molho apimentado (cerca de U$ 20). Os camarões tinham um tempero bom, mas pareciam ter sido congelados, sem a textura deles frescos. O resto do prato não chamava nada a atenção.

O sanduíche de peixe frito, crocante e melhor de que os camarões

A esposa fugiu dos crustáceos e pediu uma das poucas opções sem eles, o fishwich, um sanduíche de peixe frito que era quase um fish and chips. O peixe estava saboroso e com capinha bem crocante, melhor de que a especialidade da casa, e o prato era imenso por cerca de U$ 15.

A comida estava ok, e o preço era relativamente baixo em comparação com outros restaurantes de verdade, mas refeição não foi nada memorável, e a decoração chama mais atenção de que o próprio camarão. É um lugar muito mais para um passeio bem turístico de que para comer bem.

A comida trash dos chefs estrelados

Danny Meyer e David Chang têm os restaurantes mais premiados, aclamados e idolatrados de Nova York, com comida de altíssimo nível que muitas vezes custam valores estratosféricos. E depois de passar horas trabalhando com foie gras, trufas e outros alimentos requintados e caros, eles largam tudo para ir comer um pedaço de galinha empanada e frita por menos de U$ 10 numa rede de fast food especializada em fazer concorrência com o KFC, o Popeye’s.

A caixinha em que vêm a galinha frita e o biscuit do Popeye's

Originado em Nova Orleans, o Popeye’s é menor e menos conhecido de que a rede de frango frito do Kentucky, mas ganha adeptos mesmo na alta gastronomia por um tempero mais forte, apimentado, e por uma capinha empanada muito crocante. O restaurante surgiu nos anos 1970 em Baton Rouge, a rede tem cerca de mil lojinhas quasde exclusivamente nos Estados Unidos.

O ambiente das lanchonetes é ainda menor e menos agradável de que o do KFC, com espaço praticamente apenas para comprar a comida e levar para comer em outro lugar, mas o sabor e a textura dos pratos preparados lá fizeram com que a rede vencesse vários concursos nacionais de melhor frango frito das grandes redes desse tipo de fast food. Um dos motivos, alega-se, além do tempero, é o fato de que o Popeye’s serve quase exclusivamente isso, frango empanado e pãezinhos tipo biscuit.

Os dois tipos de galinha empanada e frita que são servidos bem baratinhos no Popeye's

Em Nova York há nove lanchonetes da rede Popeye’s, sendo sete delas em Manhattan. Ela chama menos a atenção, mas pode ser uma boa alternativa para uma comida rápida e barata, se não há preocupação com limites de calorias também. As refeições individuais, com três pedaços de frango frito, um pãozinho e algum outro acompanhamento custa em torno de U$ 5, com bastante comida para servir por todo o dia.

O Monstro pulou os acompanhamentos e experimentou dois preparos da galinha empanada da lanchonete. Pediu o tradicional combinado de asas e coxas de galinha e um especial de filezinho. Os dois são cobertos com massas de empanar diferentes. Os tradicionais lembram o KFC, mas são mais temperados e crocantes. Os segundos recebem uma massa mais clara e com sabor bem característico e diferente do que há em outras lojas do tipo.

Uma das poucas variações que o Popeye’s oferece são pedaços de camarão empanados com a mesma massa que é usada para fazer a galinha frita. São pequeno pedaços de camarão com uma capinha crocante e apimentada, bem gostosos e excelentes para acompanhar uma cerveja gelada.

Serviço:
Lojas do Popeye’s em NY

Não acredita? Então olha aí também…
Danny Meyer fala que visita o Popeye’s 2 vezes por ano

David Chang inclui restaurante em seus prazeres culpados

A melhor comida do mundo pelo melhor preço da cidade

A restaurant week, que começou agora em NY, sempre se apresenta como uma ótima oportunidade de comer bem e barato em cidades como Nova York e São Paulo, mas não e preciso esperar por ela para encontrar ofertas perfeitas para equilibrar custo baixo e o benefício da melhor gastronomia do planeta.

Amouse bouche servido no Jean Georges, cubo de melancia com pimenta, cubo de queijo com geléia e azeite e caldo quente de gengibre

Duas vezes por ano, os restaurantes de Nova York se reúnem para oferecer menus especiais a preços mais acessíveis de que o normal, com refeição de três pratos por U$ 24 no almoço ou de U$ 35 no jantar, por pessoa (sem contar imposto e serviço, que jogam os preços para U$ 30 e U$ 44, e sem bebidas). É uma época em que os restaurantes ficam cheios, as reservas são mais disputadas e há oportunidades de encontrar boa comida a bons preços. Mas não é a única.

Sashimi de truta salmonada com ovas no almoço do Jean Georges

Muitos dos restaurantes estrelados de Nova York têm alternativas baratas da sua comida excepcional ao longo de todo o ano. Normalmente isso funciona no almoço, horário em que as pessoas da cidade costumam fazer refeições rápidas na rua e não há fila para reservar mesas e alguns restaurantes ficam vazios. Em vez de fechar as portas, eles oferecem menus mais simples e baratos para atrair pessoas com limite na conta bancária, turistas e refeições de negócios. É assim que pode-se encontrar um menus em restaurantes premiados por menos de U$ 30 por pessoa.

Foie gras brulée, servido om capinha crocante de açúcar caramelizado

As duas melhores opções de custo e benefício de Nova York são os restaurante Jean Georges e o Eleven Madison Park. O primeiro tem três estrelas do Guia Michelin, é considerado “excepcional” pelo “New York Times”. Durante a noite, a refeição no Jean Geroges custa U$ 98 por pessoa, mas todos os dias é possível comer lá por U$ 29 pelo menu de dois pratos no almoço.

Frango com capa de parmesão com alcachofras e molho de limão

Inaugurado em 1997, o Jean Georges fica no Columbus Circle, a esquina sudoeste do Central Park, onde ficam outros restaurantes estrelados. Ele tem um ambiente formal, que exige uso de paletó (gravata é opcional) e onde é melhor fazer reserva com pelo menos um dia de antecedência, por mais que tenha uma parte de bar onde não é exigida tanta formalidade ou reserva. Foi o primeiro grande empreendimento do chef francês Jean-Georges Vongerichten na cidade, e depois do sucesso ali, montou vários outros restaurantes pelo mundo.

Salmão com couscous, molho de tomate e uma fina fatia de pele de peixe frita

O Monstro almoçou no Jean Georges nesta sua última semana morando em Nova York. Fez reserva na véspera, chegou ao lugar ao meio dia, foi rapidamente levado à mesa e recebeu um atendimento impressionante. O menu de almoço inclui dois pratos, uma entrada e um principal, que podem ser escolhidos de uma lista com mais de uma dúzia de opções. A comida é deliciosa, diferenciada, exclusiva, sem esvaziar todos os bolsos.

Sobremesa do Jean Georges, com bolinho de chocolate, sorvete de baunilha e ganache de mel

Antes de servirem a entrada, enquanto se escolhem os pratos, o JG oferece pequenos amouse bouches. Um cubo de melancia com chili e manjericão, impressionante, e um cubo de queijo com azeite e geléia de frutas vermelhas. Vem também uma pequena sopa de gengibre.

E entrada, foram escolhidos dois pratos bem diferentes. Um era um sashimi de truta salmonada, fresca, cortada em cubos e deliciosa, junto com ovas de truta, um caldo de limão e um creme de horseradish, uma raiz forte natural. Combinação excelente. A segunda entrada era ainda mais excepcional, um foie gras brulée, servido quase como um creme brulée, frio e com uma capinha quente e crocante de açúcar caramelizado, por cima de uma torrada.

O primeiro prato principal foi um pedaço de coxa de frango confit, desossada e assada lentamente em gordura, coberta com uma camada crocante de queijo parmesão. Vinha acompanhada por pedaços de alcachofra e um molho amanteigado de limão.

O segundo prato principal, pedido pela esposa, era um filé de salmão cozido acompanhado por um couscous, um molho de tomate e um pedaço crocante de pele de salmão empanada e frita. Estava igualmente delicado e gostoso.

Amouse bouche do Eleven Madison Park

Além do menu, o JG oferece a opção de pedir pratos adicionais por U$ 15. Os dois pratos do menu são suficientes como refeição, mas pode-se experimentar mais pratos pagando um preço não muito mais alto. O restaurante tem uma carta de vinhos gigantesca, com opções boas desde U$ 40 ou com taças de U$ 12. De sobremesa, há algumas opções interessantes de cerca de U$ 10. O Monstro pediu um petit gateau quente acompanhado de sorvete de baunilha e uma ganache de mel, muito bom.

Gourgères, pãezinhos de queijo leves e bons

A outra opção de perfeita combinação entre economia e comida de altíssimo nível é um pouco menos badalada por não ter três estrelas do Michelin, mas apenas uma. O Eleven Madison Park está, entretanto em 50º lugar na lista de melhores restaurantes do mundo segundo a revista “Restaurant” e também recebeu a nota máxima do crítico do “New York Times”.

Manteiga especial preparada com leite de cabra, suave e macia

Parte do império gastronômico de Danny Meyer, um dos empresários com mais força na cena da alimentação nova-iorquina, o Eleven cobra U$ 95 pelo menu mais barato no jantar, mas tem uma opção de dois pratos no almoço por U$ 28. Em vez de separar entre entradas e pratos principais, ele oferece uma lista aberta para que o cliente monte a combinação que achar mais interessante.

Spatzle com carne de porco e cogumelos

O Eleven fica em frente à Madison Square, onde fica o Shake Shack, hamburgueria da moda que também pertence a Danny Meyer. É preciso fazer reserva com um dia de antecedência para sentar no salão principal do restaurante, mas há uma área de bar com mesas menores, menos formalidade e que pode ser acessada sem reserva. Assim como no Jean Geroges, há centenas de opções de vinhos, começando por cerca de U$ 45 por garrafa.

Macarrão com molho de limão e carangueijos

No almoço em que o Monstro teve no Eleven, a refeição começou com pãezinhos, manteiga de luxo, uma manteiga especial preparada com leite de cabra, cubinhos de marshmallow com sabor de cenoura e torradinhas de geléia de frutas e patê de foie. Tudo muito bom.

Carneiro com berinjela

As entradas escolhidas no Eleven estavam entre as coisas mais gostosas comidas durante os seis meses em Nova York. A da esposa era um spatzle, a massa tipo nhoque alemão que não leva batatas, acompanhado por um pedaço de carne de porco assada e cogumelos. A do Monstro era uma massa tipo tagliolini em um molho de manteiga, limão e pimenta e coberto com carangueijo do Alaska, e estava sensacional.

Lasanha de lagosta

Os pratos principais foram um carneiro com berinjela e iogurte, muito saboroso e uma lasanha de lagosta, que vinha com duas ou três camadas de massa e um enorme pedaço de cauda de lagosta no meio, tudo coberto com um caldo tipo bisque de lagosta, sensacional. Este segundo prato, entretanto, exigia o pagamento de U$ 15 adicionais por conta da lagosta, o que valia cada centavo.

trio vermelho de sobremesa

O almoço foi encerrado com uma sobremesa que era um trio de frutas vermelhas, com  um sorvete delicioso de morango, um creme vermelho e um bolinho.

Esses dois restaurantes são o melhor exemplo de alta gastronomia premiada a preços acessíveis. Não chega a ser exatamente barato o custo final de no mínimo U$ 80 pela refeição, é verdade, mas mesmo extrapolando o custo do menu por pessoa e incluindo uma garrafa de vinho, sobremesa e coisas do tipo a conta não passa muito de U$ 120 (cerca de R$ 200), que é até menos do que pode custar uma refeição completa em bons restaurantes de São Paulo, mas com a marca e o reconhecimento internacional na cidade mais cosmopolita do mundo.

Serviço:
Jean Georges
1 Central Park W
New York, NY 10023
(212) 299-3900

Eleven Madison Park
11 Madison Ave
New York, NY 10010
(212) 889-0905

Não acredita? Então olha aí também…
Jean Georges no NYT

Eleven no Yelp