Londres e as redes de restaurantes sem alma

Uma piada publicada na revista Time Out dizia que o prefeito de Londres, Boris Johnson, estava empenhado em fazer com que nenhum londrino precisasse andar mais de 50 metros sem encontrar com uma cafeteria de alguma rede famosa. Em muitas partes da cidade, se considerarmos restaurantes em vez de cafeterias, parece que isso já foi alcançado, de tantas logomarcas semelhantes de restaurantes e lanchonetes que se repetem.

Londres é uma metrópole dominada por redes que reinterpretam a cultura americana dos casual diners. São restaurantes que incorporam a cultura do fast-food e onde o atendimento é rápido, a comida está semipronta nas cozinhas e é servida igualmente em alta velocidade, e onde os preços são mais baixos de que de restaurantes de verdade. Em quase todos os bairros centrais da cidade, as mesmas marcas se repetem, oferecendo o mesmo cardápio e a mesma experiência um tanto plastificada da refeição.

Críticos gastronômicos e entusiastas da boa alimentação (incluindo este Monstro) olham com cara feia e tentam fugir desses restaurantes de rede que parecem não ter alma e buscar apenas o lucro em cima da venda de grandes volumes de uma comida repetitiva – tanto que muitos restaurantes são franquias, com propostas bem diferentes e de propriedade de um mesmo grupo de acionistas. Mas as redes são populares entre turistas, estudantes e londrinos presos à correria do dia-a-dia, os principais clientes desses restaurantes, que estão sempre cheios e têm uma grande rotatividade. É gente que busca refeições básicas, com o mínimo de qualidade, mas sem nada especial.

O Monstro já experimentou comida de boa parte dessas redes, e admite que não se come mal nelas, mas mesmo assim não recomenda nenhum desses restaurantes, a não ser que o interesse seja só um lanche rápido e (relativamente) barato. Para o turista, pode ser uma alternativa de comida acessível, rápida e simples, mas sem nada de especial. Dificilmente será feita uma refeição memorável em qualquer dessas redes.

Apesar de serem rejeitados por serem franquias e “não terem alma”, é preciso admitir que a reinterpretação inglesa faz com que Londres tenha muitas redes diferentes das mais populares nos Estados Unidos, se adaptando mais ao cosmopolita gosto local. Em vez de Applebee’s, TGI Friday’s e Outback, Londres tem uma volta ao mundo em restaurantes de rede – cada um com sua especialidade: Há os japoneses (Yo!Sushi, Wagamama, Wasabi, Itsu), portugueses (Nando’s), italianos (Ask, Zizzi, Prezzo, Carluccios), Americanos (GBK, Byron), churrascarias brasileiras (Preto, Gaucho), sanduicherias (Pret a Manger, Apostrophe, Eat), franceses (Côte), mexicanos (Wahaca), indianos (Masala Zone), tailandeses (Busaba Eathai) e dezenas de outros.

A verdade, entretanto, é que o capitalismo e a demanda por boa comida dominaram até mesmo restaurantes de qualidade em Londres, que passam a contar com filiais como se fossem redes menores, independentes, mas com uma busca por boa comida autoral – são diferentes das franquias, mas também estão em vários lugares. Até mesmo chefs aclamados como Heston Blumenthal e Fergus Henderson têm sua excepcional comida em mais de um endereço em Londres. Celebridade da TV, Jamie Oliver também tem uma rede de restaurantes que não deixa muito a dever aos casual diners americanos. O desafio é buscar informação para saber separar onde a cozinha é comandada pelo chef e a comida tem alma de onde quem comanda o cardápio é um grupo de acionistas que ignora a gastronomia e está preocupado apenas com o lucro fácil.

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2 Respostas para “Londres e as redes de restaurantes sem alma

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