Inglaterra e comida: um casamento sem amor

foxHá um fundo de verdade por trás do estereótipo superficial de que come-se mal na Inglaterra. Por mais exagerado que seja o clichê, os ingleses têm uma relação com a gastronomia e a alimentação que é bem diferente do que se vê em outros países, e bem especificamente o que se vê na França, por exemplo. A comida não é tratada com a mesma prioridade na Inglaterra que é tratada no resto do mundo.

Segundo a antropóloga britânica Kate Fox, a grande questão é que os ingleses vêem comida como um privilégio, não como um direito. A boa gastronomia é para poucos, enquanto pratos sem graça são a norma para a maioria.

O diagnóstico é parte do excelente livro “Watching the English”, em que Fox faz uma análise antropológica dos seus compatriotas, inclusive na hora de comer. Para ela, a relação diferenciada dos ingleses com a comida afeta a gastronomia do país

Fox ressalta que espanhois, franceses e italianos costumam brincar que não exista algo que possa ser considerado “gastronomia inglesa”, pois isso requer que exista uma paixão por comida, o que claramente não há no país. A comparação tradicional é de que a relação dos ingleses com comida é um “casamento sem amor”.

Para ela, “casamento sem amor” não é uma descrição injusta para a relação dos ingleses com a comida, mas ela diz preferir descrever a relação como uma coabitação desconfortável e sem compromisso. É uma relação ambivalente, discordante e volúvel. Há momentos de extrema afeição, e até mesmo de paixão, mas no geral é justo dizer que não temos um amor intenso que os outros europeus têm pela comida.

Fox diz que a relação dos ingleses com a gastronomia se enquadra no perfil tradicional da cultura britânica em que as pessoas tentam não demonstrar interesse extremo por nada, como se demonstração de emoção por algo trivial fosse algo bobo e vergonhoso. Além disso, os ingleses costumam demonstrar um desconforto genérico em relação a demonstrações de prazer sensual, incluindo na comida. É algo visto como obsceno.

O livro diz ainda que a maioria dos ingleses têm orgulho em dizer que “come para viver”, em vez de que “vive para comer”, e que o interesse exagerado em comida é visto como algo estranho e moralmente suspeito. A devoção exagerada à comida é desprezada, e interesse em gastronomia está no mesmo nível de interesse por moda ou decoração.

Pesquisadores e amantes da hitória da gastronomia costumam defender que a comida inglesa nem sempre foi tão criticada ou de baixa qualidade, e que no passado grandes banquetes eram símbolo da alimentação britânica. Além disso, ressaltam que há uma nova onda de valorização da boa alimentação no Reino Unido, que mudou a paisagem nos últimos 20 anos. Para Fox, entretanto, essa alimentação de alto nível no passado era exclusividade de uma minoria de nobres e ricos, e visitantes estrangeiros sempre reclamaram da qualidade da comida tradicional inglesa.

Sem entrar hora nenhuma no mérito da qualidade real dos alimentos, mas focando na questão social e humana na relação com a alimentação, a autora diz é verdade que o interesse em comida e gastronomia vem crescendo nos anos recentes, e que alguns ingleses começam a demonstrar um pouco mais de entusiasmo, e programas de TV sobre comida têm se tornado muito populares. Mesmo assim, diz, ainda são poucos os lares ingleses em que comida caseira é preparada diariamente com ingredientes frescos. Além disso, uma das características dos ingleses que se empolgam um pouco mais com gastronomia é que há uma busca permanente por novidades e modas. O que os ingleses chamam de “foodie” seria uma pessoa normal, com um grau adequado de interesse por comida, em outras partes do mundo.

A conclusão dela é de que apesar de ter um fundo de verdade, sempre há exagero na forma como a comida inglesa é vista pelos outros países. Assim como não é totalmente verdade que os ingleses comem sempre mal, também é exagerada a empolgação recente com a culinária tradicional inglesa como sendo uma redescoberta. A comida inglesa não é nem tão ruim quanto dizem os críticos nem tão boa quanto dizem os foodies locais, diz.

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3 Respostas para “Inglaterra e comida: um casamento sem amor

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