O primeiro guia de restaurantes de londres

IMG_1371Em 2015, ano em que o Monstro pretende lançar seu guia de gastronomia de Londres, comemora-se uma data importante para livros deste tipo, pois se completam 200 anos do lançamento da primeira obra destinada a indicar os melhores lugar para comer e beber na capital Inglesa.

Sete anos antes da declaração de independência do Brasil, o escritor Ralph Rylance lançava, em 1815, o “The Epicure’s Almanack – Eating and Drinking in Regency London”, livro em que lista 650 estabelecimentos para “comer bem” em Londres, cidade que então tinha aproximadamente 1 milhão de habitantes. Rylance tinha 33 anos quando o Almanack foi publicado (a mesma idade do Monstro no início de 2015), e tinha escrito um livro anterior sobre o Brasil (mais exatamente sobre a fuga da Família Real portuguesa para o Brasil em 1808).

IMG_1374

Ralph Rylance, autor do primeiro guia de gastronomia de Londres

A obra tomou como base o” Almanach des Gourmands”, editado em Paris em 1803 por Alexandre Grimod de la Reynière (conhecido como o inventor da crítica de restaurantes), mas evitou entrar tanto no mérito da gastronomia como preceitos da boa alimentação. A edição inglesa preferiu focar na conveniência de encontrar um lugar que sirva boa comida, com atendimento rápido e a preços acessíveis.

Em todo o almanaque fica evidente a preferêcia dos ingleses pelo jantar em detrimento do almoço, algo que marca a cultura nos dias de hoje e que já era presente no século XIX. A refeição tradicional da época descrita no livro começava com um caldo ou sopa, seguia para um peixe e se completava com uma carne acompanhada de batatas ou outros vegetais.

Apesar de ser o primeiro guia exclusivamente gastronômico, já existiam guias de turismo que falavam rapidamente sobre comida em Londres desde o século XVII. As descrições do Almanack refletem a mistura que ainda havia entre os tipos de locais que vendiam comidas no século XIX. em vez de falar em bares e restaurantes, ele chama os locais de “eating houses”, e discorre sobre desde vendedores de comidas nas ruas até os hoteis mais luxuosos da época. A principal diferenciação que ele faz é entre os lugares que oferecem alojamento e os que só servem comidas.

O Almanack de 1815 também reflete a cultura machista da época ao descrever que “mulheres respeitáveis” não eram vistas com frequência em bares e restaurantes da cidade.

Publicado numa primeira edição com tiragem de 750 exemplares, o Almanack deveria virar uma série atualizada regularmente, mas não passou da primeira impressão. Em 1817, apenas 300 cópias do livro haviam sido vendidas, e a única resenha publicada sobre ele reclamava que o livro dava atenção demais a lugares baratos, sem dar o devido valor aos melhores e mais caros restaurantes (no mercado editorial atual, um livro de opções baratas para comer talvez fosse mais popular de que um só com opções caras).

Junto com o fim do Epicure’s Almanack, Londres perdeu seu posto de lugar onde se come bem, como era reconhecido no passado, e se transformou no que ficou famoso como um deserto gastronômico, um lugar que vive um casamento sem amor com a comida, como diria a antropóloga Kate Fox. Por 150 anos, Londres ficou sem nenhum guia gastronômico que tratasse da cidade, até que em 1968 o “Good Food Guide to London” foi publicado por Raymond Postgate.

O livro de quase 200 anos foi editado novamente em 2013 pela pesquisadora Janet Ing Freeman e pela Biblioteca Britânica depois de duas décadas de pesquisas em arquivos históricos da cidade. A nova edição faz um trabalho de análise e recuperação da Londres da época em comparação com o que existe atualmente.

Os sobreviventes
Quinze dos estabelecimentos citados por Rylance no guia de 200 anos atrás continuam em atividade e podem ser visitados pelo turista que chega neste 2015 a Londres. Seis deles ficam na área central de Londres, e nove na periferia da cidade. Todos passaram por reformas, mas continuam sendo essencialmente o mesmo lugar descrito pelo autor do almanaque – e muitos vão aparecer aqui neste Monstro ao longo dos próximos meses. Londres tem muitos estabelecimentos que funcionam há mais de dois séculos, mas estes foram os únicos citados pelo Almanack e que continuam vivos.

Os seis bares e restaurantes descritos pelo Almanack de 1815 e que continuam funcionando na área central de Londres são:

– Seven Stars, pub na Carey street

– The Bell (agora chamado Old Bell), pub na Fleet street

– The Cheshire Cheese (agora Ye Olde Cheshire Cheese), também na Fleet street

– The George and Vulture, em George Yard

– Simpson’s Tavern, em Ball Court

– Cock and Woolpack, na Finch Lane

Fora da área central de Londres, sobrevivem:

The George, em Borough High street, Southwark

– The George, em King Street, Twickenham

– The Green Man, em Putney Heath

– The King’s Arms, em Hampton Court

– The Town of Ramsgate, em Wapping

– The Spaniards, em Hampstead Heath

– The Windmill, em Clapham Common

– The Hand and Flower, em Hammersmith

– The George (agora The George and Devonshire), em Chiswick.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s