Arquivo do mês: outubro 2014

Comedores de batatas

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“Os Comedores de Batata”, de Van Gogh

Na gíria, comedores de batatas são imigrantes irlandeses que se mudaram para os Estados Unidos especialmente durante a grande fome no país de origem, no século XIX. Nas artes, comedores de batata são os personagens de um dos quadros mais famosos de Van Gogh. Na prática, não dá para pensar muito em comida inglesa sem considerar a importância da batata para a dieta nacional britânica, ou até mesmo a ideia de que a batata é comumente conhecida no Brasil como “inglesa”.

A batata assada é servida como prato principal na Inglaterra

A batata assada é servida como prato principal na Inglaterra

Cada britânico come em média 3,3 refeições por semana incluindo batatas preparadas de alguma forma, segundo dados do Potato Council, um departamento governamental voltado inteiramente a apoiar a indústria de batata no Reino Unido. As batatas são comidas puras, como lanche, como prato principal, e costuma ser o principal acompanhamento para carnes, frituras e até mesmo tortas. Os ingleses consomem 94 quilos de batata por pessoa por ano, e batatas fazem parte de 10,14 bilhões de refeições a cada ano.

O consumo de batatas atualmente no Reino Unido passa de 7 milhões de toneladas por ano. Além disso, a indústria de batatas do Reino Unido movimenta quse 750 milhões de libras (R$ 3 bilhões) por ano nas fazendas e cerca de 3,5 bilhões de libras no varejo (R$14 bilhões). O Reino Unido é o 11º maior produtor de batatas do mundo, e a plantação de batatas ocupa 120 mil hectares de terra no Reino Unido.

Pesquisas realizadas pelo Potato Council indicam que a preferência pela batata é uma questão de gosto. Os britânicos costumam alegar que comem muita batata simplesmente porque gostam do sabor. Segundo uma pesquisa, 80% dos ingleses acreditam que batatas são saudáveis, mas apenas 28% dizem que elas são convenientes, fáceis de serem comidas.

Apesar de os brasileiros chamarem o tubérculo de forma genérica de “batata inglesa”, os ingleses têm 450 tipos de batatas diferentes, cada uma usada para um tipo de comida diferente. Na hora de comer na rua, entretanto, é normal que chamem apenas de “potato”, como os brasileiros fazem.

A batata está especialmente associada à comida caseira. Na rua, é normal os ingleses comerem chips, as batatas fritas, e jacket potatos, as assadas, mas o cardápio fora de casa é mais internacionalizado e variado, enquanto em casa come-se mais comida tradicional, cheia de batatas.

Batata assada com feijão, um prato bem popular na Inglaterra

Batata assada com feijão, um prato bem popular na Inglaterra

Batata quente
Chips, batata frita, é a forma mais comum de se comer batata no Reino Unido, mas o amor dos ingleses pelas batatas vai além das frituras, obviamente. Um outro prato muito popular nas ruas londrinas é o jacket potato, batata assada servida com algum molho ou carne por cima.

A descrição genérica não é nada estranha ao paladar brasileiro, já acostumado há anos a ver lanchonetes especializadas nessas batatas recheadas em quase todos os shoppings do país. A diferença radical dos ingleses está nas coberturas e recheios. Ingleses comem batatas assadas com queijo, com carne moída e outros acompanhamentos. Entretanto o “topping”, termo usado para designar a cobertura, mais popular é o feijão.

De cara, algo com que muitos brasileiros simpatizariam: batata assada com feijão. O problema é que a refeição é só isso, sem nenhuma carne ou outro acompanhamento. Ah, outra coisa, o feijão não é o mesmo que dez entre dez brasileiros preferem, mas o preparo adocicado do feijão que os ingleses comem cotidianamente.

História

Antes da introdução da batata na Europa, a dieta inglesa era a base de grãos, e a população sofria com a impossibilidade de ter uma produção regular em uma região de clima tão instável e úmido. As batatas se tornaram a fonte de energia mais confiável para inglesespor causa da facilidade da produção delas, que são plantadas na primavera e colhidas durante o verão e o outono. A batata tem cultivo mais constante e mais fácil, e a introdução da batata na dieta permitiu que a população inglesa (e de várias outras partes da Europa) crescesse.

“As taxas de natalidade cresceram, a mortalidade infantil diminuiu, e as mulheres se tornaram mais férteis. Tudo isso pode ser atribuído à batata”, disse à rede BBC o pesquisador John Reader, autor do livro “A Batata”.

Originalmente, as batatas foram domesticadas na América do Sul, especialmente no Peru e no Chile, e chegaram à Grã Bretanha na virada do século XVI para o XVII, se tornando rapidamente uma parte importante da dieta no país. A popularidade cresceu especialmente durante a Revolução Indústrial, que criou demanda por alimentos baratos e ricos em energia.

Inicialmente plantada em pequenos espaços, as batatas já tomavam conta de grandes campos no século XVIII. No século XIX, a batata já havia se tornado o ingrediente mais importante da alimentação na Grã Bretanha, tanto que uma praga que atacou as plantações nos anos 1840 causou uma grande crise, especialmente na Irlanda, onde calcula-se que cerca de um milhão de pessoas tenham morrido de fome.

Consumo controverso
Apesar do alto consumo de batatas para os padrões mundiais de hoje em dia, os ingleses estão preocupados com a queda nos números da indústria batateira da Inglaterra. Em 2014, a indústria inglesa lamentava uma queda de 8% no volume de batatas consumidas no Reino Unido. O que gerou uma campanha para entender o motivo do declínio e incentivar o consumo de mais batatas.

Nos anos mais recentes, as batatas passaram a ser vistas como vilãs por uma campanha de nutricionistas que são contra o consumo de carboidratos, o que afetou o consumo delas. O maior problema, entretanto, é que grande parte das batatas são consumidas fritas, o que realmente gera uma alimentação não muito saudável.

Para combater o declínio no consumo, o Potato Council ressalta que batatas não são só carboidrato, mas têm também vitaminas C e B6, além de potássio, magnésio e fibras. Além disso, as batatas não têm muita gordura.

Veja abaixo um vídeo mostrando a vida de uma batata inglesa até virar chip na Inglaterra

Field to Frier from Beard Askew Productions on Vimeo.

Torneira mágica

tap4“Se a resposta não é cerveja… você está fazendo a pergunta errada”

Indicado regularmente como o melhor pub para experimentar cervejas em Londres, o Euston Tap é apenas uma casinha minúscula em uma praça em frente à estação de trem de Euston, na região central de Londres.

Veja mais fotos no Tumblr do Monstro

tap2O pub tem apenas um pequeno balcão, um jardim com poucas mesas e alguns sofás no primeiro andar, mas os clientes costumam ficar bebendo mesmo na calçada, que está sempre cheia. O bar é muito frequentado por quem mora e trabalha na região e busca uma cerveja rápida, ou por turistas que visitam o local em busca da fama de melhor pub de Londres.

Na “torneira” que dá nome ao pub, há a opção 28 cervejas diferentes. Algumas são importadas, outras são artesanais (20 são tiradas de barris sob pressão de gás carbônico e 8 são ales “vivas”) e normalmente não há nenhuma das mais populares nos outros pubs (nada de Forsters ou London Pride, por exemplo). Além disso, o cardápio tem 150 opções de cervejas em garrafas. Os atendentes do bar são apaixonados por cervejas e estão sempre dispostos a recomendar alguma, ou a oferecer um gole para o cliente experimentar antes de decidir o que beber.

Em uma visita recente, o Monstro começou com uma pint da americana Lagunitas IPA (5,5 libras) e depois tomou a excelente Raw, da cervejaria Moor (3,6 libras).

O pub não tem cozinha, então não há uma grande opção de comidas, mas uma pizzaria vizinha permite que sejam feitos pedidos no bar, e eles entregam a comida lá, a pé.

Veja o site do Euston Tap

Sapo no buraco

toad2Os nomes das comidas inglesas às vezes são mais bizarros de que as próprias comidas. Não seria estranho imaginar que muito do preconceito internacional que existe contra a gastronomia britânica vem da rejeição a alguns nomes, que muitas vezes são incorporados ao cardápio tradicional como uma brincadeira com as palavras (Ah, o estranho humor inglês…).

Outro dia o Monstro falava do kidney pudding. Pudim de rim é uma descrição que pode imediatamente afastar um possível comensal. Pois aqui vai mais um: Toad in a hole – quem vai querer comer um prato chamado “sapo num buraco”?

Veja mais fotos do toad in a hole no Tumblr

Toad in a hole em foto do jornal 'Daily Telegraph'

Toad in a hole em foto do jornal ‘Daily Telegraph’

O sapo num buraco é um prato de linguiças assadas no meio de uma massa de yorkshire pudding (mais um nome estranho para uma massa entre panqueca e suflê assada no forno). A Massa em torno das linguiças fica sequinha e serve como acompanhamento da salsichas assadas ali.

O prato faz parte da mesa inglesa há mais de 200 anos, segundo uma reportagem do jornal “The Daily Telegraph”, e por muito tempo foi associado a classes mais baixas, por ser uma comida barata e “vulgar”. Hoje em dia, entretanto, aparenta mais ser um prato para crianças, ou a comfort food que adultos comem para se lembrar da infância e do conforto familiar.

Tanto assim que hoje em dia é mais fácil comer o toad in a hole em casa, de que em bares, pubs e restaurantes. Para quem quiser experimentar, vale tentar pubs tradicionais aos domingos, quando o preparo de yorkshire pudding para o Sunday Roast pode acompanhar o toad in a hole. Outra opção é procurar nos mesmos lugares especializados em comidas tradicionais inglesas listados por terem bons steak and kidney pie. O monstro não lembra de ter visto ele como opção em muitos cardápios, e o que se vê são várias opções congeladas nos supermercados. Foi uma dessas que o Monstro experimentou. A massa estava com ótima textura, mas sem absolutamente nenhum sabor. Pelo menos as linguiças eram bem temperadas.

O nome toad in a hole, diz o jornal, viria do fato de que a massa cresce em torno das linguiças, formando um buraco com elas no meio – e alguém achou que as linguiças ficavam parecendo um sapo dentro de um buraco…

O toad in a hole foi criado no início do século XVIII, quando massas assadas como o yorkshire pudding eram muito populares. Segundo a pesquisadora India Mandelkern, livros de receita do século XIX se referiam ao prato como “um velho prto inglês”

Em 1747, o livro “The Art of Cookery”, de Hannah Glasse, já usava a expressão “in a hole” (em um buraco) para se referir a pratos assados dentro de uma massa de yorkshire pudding – no caso, um pombo. Alguns anos depois, “The Modern Housewife”, de Alexis Soyer, recomendava assar restos de carnes, ou as carnes mais baratas, dentro da massa dessa forma, o que pode ter dado origem ao preparo de salsichas. A primeira menção a “toad in the hole”, entretanto, seria de 1787, mas há registros de receitas de salsichas assadas dessa forma desde 1757.

Nuggets de “lagosta”

Scampi and chips em foto do jornal 'Daily Mail'

Scampi and chips em foto do jornal ‘Daily Mail’

O fish and chips, prato de peixe empanado acompanhado por batatas fritas, é sem dúvida a comida inglesa mais conhecida no mundo. Sempre que ele aparece em um cardápio em Londres, logo abaixo dele costuma aparecer um outro prato tradicional inglês que é menos conhecido, e que na verdade muitos britânicos comem sem nem saber exatamente o que é aquilo: o scampi and chips.

Oferecido regularmente em chippies, as lojas especializadas em frituras, e em pubs, scampi and chips poderia ser descrito como um prato de nuggets de lagostim acompanhado por batatas fritas.

scampi3São pequenos pedaços de lagostim empanados à milanesa em uma capa crocante parecida com a dos nuggets de frango que os brasileiros conhecem bem. É um prato que se assemelha mais a um petisco, e no qual a capa de fritura acaba se destacando no sabor mais de que o próprio recheio. É um prato bem popular no Reino Unido, cujo mercado movimenta cerca de 50 milhões de libras por ano, o equivalente a R$ 200 milhões.

Oficialmente, scampi seria o termo empregado para designar lagostins (tanto que o nome originalmente é quase uma referência a lagosta). O dicionário de etimologia diz que a palavra scampi vem do italiano e é o plural de scampo (camarão ou lagosta), que por sua vez viria do grego “kampe” que significa algo como “encurvado” em referência ao formato do camarão. O dicionário Webster define scampi como “um prato de grandes camarões preparados com molho de alho”; ou “grandes camarões comumente empanados e fritos”.

Segundo a empresa Young’s, que vende frutos do mar, o termo scampi foi introduzido no Reino Unido em 1946, quando ela ofereceu o lagostim a um restaurante como substituto para lagosta. Na Inglaterra do pós-guerra, havia racionamento e falta de produtos variados, e o lagostim acabou sendo abraçado como algo acessível à época. A Young’s alega que o nome scampi usado no Reino Unido não vem do termo italiano, mas de Scampolo, um prato de frutos do mar da cidade do chef Augusti, do restaurante Manetta.

Pescador com scampi, os lagostins frescos

Pescador com scampi, os lagostins frescos

Salsicha de peixe e camarão
Na realidade, entretanto, o termo passou a ser empregado de forma livre no Reino Unido, como uma designação genérica para camarão. E a coisa fica ainda pior quando o termo é usado não para o animal, mas especificamente para o preparo dele frito, empanado. Na maioria das situações atualmente, os pedaços de scampi empanados na verdade são algum preparo de peixes (especialmente tamboril) e camarões processados, de forma que o sabor e a textura são maquiados e se tornam artificiais.

Segundo a pesquisadora Joanna Blythman, especializada em estudos sobre alimentos, o scampi é “o pior exemplo de como a indústria alimentar engana os consumidores”. Uma pesquisa realizada nos scampi oferecidos pelas principais marcas inglesas analisou o DNA da carne encontrada dentro dos pequenos nuggets e descobriu que mais de 20% deles era feito de tamboril, e não de lagostim.

Este tipo de prática é ilegal no Reino Unido, mas é totalmente comum. A maioria do scampi vendido no Reino Unido não é artesanal, e na verdade vem da indústria, e portanto se assemelha a uma “salsicha de peixe, camarão e lagostim”. Como a “carne” vem dentro de uma camada de fritura sequinha e salgada, as pessoas acabam ignorando o fato de que na verdade não sabem o que estão comendo. O curioso é que nem mesmo os ingleses, que comem tanto esses nuggets de frutos do mar, sabem o que tem dentro da capinha crocante de fritura. Segundo a Whitby, uma empresa de frutos do mar do Reino Unido, “o que é scampi” é uma das pesquisas mais populares no Google.

Scampi do Master's, restaurante especializado em fish and chips em Waterloo

Scampi do Master’s, restaurante especializado em fish and chips em Waterloo

O mais comum, entretanto, é que o peixe seja misturado com a lagostim e outros ingredientes, criando pedaços homogêneos de frutos do mar processados (quase como um kani-kama, mas sem a faixa vermelha). A quantidade real de lagostim em algumas das marcas mais populares de scampi empanados não chegava a 7%, segundo a pesquisa.

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Scampi com recheio claramente processado, mas gostoso mesmo assim

Longe do Monstro querer que as pessoas evitem experimentar o scampi and chips. Apesar de o recheio ser muitas vezes “falsificado”, existem excelentes lugares preparando scampi com lagostins de verdade, ou com grandes camarões inteiros.

No Master’s, famoso restaurante especializado em fish and chips em Waterloo, por exemplo, é possível ver o cozinheiro colocando os camarões inteiros na massa (a mesma do fish and chips, em vez de ser à milanesa, como é mais comum) antes de fritá-los (o que fica uma delícia).

Além disso, como petisco, mesmo o nugget no qual não se sabe exatamente o recheio pode ser bem gostoso para acompanhar uma cerveja. O scampi comprado em uma lanchonete de Greenwich, por exemplo, tinha um recheio completamente processado, mas nem por isso era uma fritura ruim. O importante é procurar lugares de confiança e comer já sabendo o que pode estar (ou não estar) ali dentro, afinal de contas, salsichas podem ser deliciosas, mesmo que saibamos que é melhor não saber exatamente o que está ali dentro.

Melhores lugares para comer pudim de rim em Londres

Pudim de Rim do restaurante Rules, em Covent Garden

Pudim de Rim do restaurante Rules, em Covent Garden

Apesar de ser um dos maiores símbolos da comida local, o steak and kidney pudding não é mais o prato mais popular da Inglaterra, e não é encontrado em qualquer lugar. O melhor lugar para comer um pudim de rim são pubs especializados em tortas ou restaurantes que fazem resgate de receitas tradicionais do Reino Unido.

Leia mais sobre pudim de rim, um dos pratos mais tradicionais da culinária inglesa

Os pubs da rede Samuel Smith, que oferecem uma ótima cerveja de Yorkshire, costumam ter um bom pudim de rim no cardápio. A receita do pub usa poucas vísceras, e pode ser uma opção mais palatável para quem quer experimentar pela primeira vez.

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Steak and kidney pudding semi-pronto do supermercado Waitrose

Especializada em tortas, a rede Pie Minister, que tem uma barraca no Borough Market, oferece a versão torta do pudim de rim. É uma boa steak and kidney pie, com textura mais sequinha e crocante.

Outra opção é apelar para as versões prontas ou semi-prontas oferecidas em supermercados. Talvez não seja o melhor pudim que se possa provar, é uma das formas mais baratas de experimentar.

Veja abaixo alguns endereços para comer steak and kidney pudding

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Pub histórico da rede Samuel Smith. Tem um pudim bem feito, embora simples.
145 Fleet St, London EC4A 2BU

Newman Arms

Pub em Fitzrovia que tem o cardápio especialmente voltado a tortas. Oferece uma lista de pudins salgados, incluindo o de rim.
23 Rathbone St, London, W1T 1NG

Rules

Restaurante mais antigo de Londres, em Covent Garden, tem o melhor pudim de rim de Londres, segundo o guia Eat Your World, que tem um livro com melhores opções de comidas na cidade.
35 Maiden Ln, Covent Garden

Porters

Restaurante especializado em comida inglesa em Covent Garden, tem um pudding muito elogiado no Trip Advisor.
17 Henrietta Street, Covent Garden WC2E8QH

Pudim de rim do restaurante Porters

Pudim de rim do restaurante Porters

Pudim de rim

IMG_3677[1]Nenhum prato representa tão bem o quanto a comida inglesa é desprezada (e desconhecida) no resto do mundo quanto o pudim de rim. Este prato incompreendido e temido, na verdade, é chamado steak and kidney pudding, uma torta longamente cozida no vapor recheada com cubos de carne e rins, além de legumes e vinho ou cerveja. É uma descrição que afasta muita gente, e que cria uma série de tabus gastronômicos.

Mas a verdade é que o nome assusta e afasta mais de que deveria, e que vale ter coragem para experimentar a iguaria. Com uma cobertura macia, em vez de crocante como as tortas tradicionais, e um recheio bem encorpado, com um molho de carne rico e homogêneo, o pudim de rim pode ser uma delícia, não é brincadeira.

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Esse das fotos foi comido no último domingo, em um restaurante do século XVI na pequena cidade medieval de Arundel, ao sul de Londres. Veio acompanhado por legumes cozidos e batatas assadas. Estava uma delícia.

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Para começar, é preciso quebrar o tabu de comer rins. Cortados em pequenos pedaços e misturados ao molho e a pedaços de carne, os rins dão um toque de sabor mais intenso de vísceras à torta, e poderiam passar por pedaços de fígado tranquilamente. Ao mesmo tempo, a receita costuma equilibrar a combinação de carnes, sem deixar que o prato fique com gosto excesivo de vísceras. É verdade que quem não gosta de sabor de órgãos realmente não vai gostar tanto assim do pudim, mas por mais que o uso de rim soe estranho, no Brasil também comem-se vísceras como o fígado, estômago, pulmão, baço e até mesmo tripas. E a verdade é que, se bem preparados, todas são deliciosos.

IMG_3682[1]Em seguida, o tabu do nome. O termo pudding, em inglês, é o equivalente à palavra portuguesa pudim. Em inglês, entretanto, ele não evoca imagens de um cremoso e doce pudim de leite condensado. Na verdade, apesar de a palavra pudim evocar essa imagem de sobremesa, mesmo em português o dicionário aceita o uso do termo pudim como em inglês. Segundo o Aulete, pudim pode se referir a “prato salgado de ingredientes variáveis, em geral com amido, ovos, às vezes queijo, carne de frango desfiado ou peixe, e assado ou cozido em banho-maria.”

Segundo Ivan Day, pesquisador do grupo Historic Food, que pesquisa e reproduz receitas do passado, o termo “pudding” é uma adaptação da palavra francesa boudin que se refere historicamente a misturas de carnes e outros ingredientes cozidas dentro de intestinos ou outra membrana de origem animal. Segundo o jornal “The Guardian”, entretanto, é possível traçar a origem o “pudding” inglês ao período em que os romanos dominaram a ilha, quase dois mil anos atrás, e a versão moderna do pudding teria se desenvolvido no século XVII, junto com tecnologias que passaram a permitir o cozimento no vapor com maior facilidade – sem precisar de tripas.

Origem –

A combinação de carne e rim como recheio de um pudim salgado surgiu em uma receita de 1859, divulgada nacionalmente por Mrs. Beeton, uma das mais famosas autoras de livros de receitas da época, responsável pelo Book of Household Management, de 1861.

Segundo Jane Grigson, uma das mais importantes autoras de livros de receitas do Reino Unido, o pudim de rim é um dos “pratos favoritos” dos ingleses, e foi popularizado por Mrs. Beeton, que disse ter recebido a receita de uma leitora da região de Sussex, local onde se faziam os melhores pudins do país. A criação adicionava rins a um prato chamado “John Bull’s pudding”, inventado por Eliza Acton como um “pudim de carne”. Além de carne e rim, a receita original levava ainda ostras ou cogumelos, para incrementar o sabor.

Nos dias de hoje, o pudim de rim não é mais tão popular, apesar de ainda ser o prato mais essencialmente inglês que existe. Segundo o jornal “Telegraph”, um dos motivos para a diminuição na popularidade do pudim de rim é o trabalho para preparar a receita. Com uma maior participação das mulheres no mercado de trabalho depois da Segunda Guerra Mundial, a comida inglesa buscou pratos mais simples e fáceis de fazer – e o pudim de rim levar mais de três horas para ficar pronto. O que surgiu, para compensar, foram pubs e restaurantes que servem o prato, e versões industrializadas semi, ou totalmente, prontas para o consumo, mas sem charme ou delicadeza de uma receita caseira.

Foto de Steak and Kidney Pudding do Guardian

Foto de Steak and Kidney Pudding do Guardian

Em busca do pub perfeito

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Todo mundo na Inglaterra tem o seu pub preferido. O pub é parte inescapável da cultural local, que chega a ser comparado a uma religião (maior de que qualquer religião ou paixão, diria uma reportagem da revista The Economist). Apesar de todos os países terem seus bares, o pub é mais de que isso, é parte de casa, uma continuação do lar aberta a qualquer pessoa – e não adianta buscar listas de “melhor” pub do país, pois a relação é mais afetiva, nada objetiva.

Em 9 de fevereiro de 1946, menos de um ano após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando Londres sofreu gravemente com a Blitz (o frequente bombardeio alemão), essa paixão inglesa foi abordada pelo aclamado escritor George Orwell, que publicou uma coluna sobre o pub ideal no jornal “Evening Standard”.

“Meu pub preferido é o Moon Under Water”, diz o escritor, inventando um pub perfeito, que não existia. “Ele fica a dois minutos de um ponto de ônibus, em uma ruazinha transversal que bêbados e arruaceiros nunca encontram”, continua.

O pub perfeito de Orwell tem uma clientela “regular”, formada por fregueses que vão todas as noites, sentam nas mesmas cadeiras e estão ali para conversar, tanto quanto pela cerveja. O principal atrativo dele, apesar da importância da cerveja, é a “atmosfera” do lugar, com “a feiura confortável do século XIX”.

O pub perfeito tem um balcão de bar, um salão separado, um bar para as mulheres e uma sala de jantar no primeiro andar, diz (em 1946, vale lembrar).

Alguns pontos marcantes do pub perfeito segundo Orwell.

– As atendentes (ele se referia a mulheres no serviço do bar) conhecem os nomes de todos os clientes e se interessa por saber mais sobre eles.

– A arquitetura é da época vitoriana.

– Jogos como dardos são usados apenas em uma pequena parte do bar, para que o resto do pub fique livre para os outros clientes.

– Não há rádio ou piano (ou nenhuma forma de música ambiente) e o pub é silencioso o suficiente para que as pessoas possam conversar.

– Vendem-se cigarros, aspirinas, selos e os clientes podem usar o telefone do bar.

– Há um balcão de comidas onde são oferecidos sanduíches de linguiça, mexilhões, queijo, e biscoitos.

– O primeiro andar do pub oferece carne e legumes como almoço barato seis dias por semana.

– O bar serve cerveja cremosa escura tipo stout.

– O pub toma cuidado com o tipo de caneca usada para servir cerveja, oferece canecas de porcelana e nunca usa copos sem alça.

– O pub tem um grande jardim aos fundos para famílias irem juntas ao bar.

“O Moon Under Water é o meu ideal do que todo pub deveria ser … Mas agora é a hora de revelar algo que o leitor desiludido provavelmente já adivinhou. Não existe um lugar como o Moon Under Water. Quer dizer, pode até existir um pub com este nome, mas não conheço, nem conheço nenhum pub que combine todas essas qualidades”, diz Orwell.

Sete décadas depois da publicação do texto de Orwell, muita coisa mudou, e centenas de pubs de Londres têm algumas das características idealizadas pelo escritor. Alguns pubs chegaram até mesmo a copiar o nome do pub preferido de Orwell, e é possível encontrar lugares chamados de “Moon Under Water” em Londres. A impressão é deque todos os pubs tivessem passado a buscar criar a “atmosfera” do pub perfeito, e a descrição, na verdade, serviria para explicar como são muitos dos pubs ingleses.

O livro The Joy of Pub, de Frank Hopkinson, explica que os pubs fazem parte do que forma uma comunidade no Reino Unido, como instituição britânica essencial, como um território sagrado.

Enquanto bares no resto do mundo são impessoais, e não costumam criar laços afetivos entre o local e os clientes, o pub é como “uma poltrona preferida”, diz o livro, oferecendo conforto inigualável. Para este Monstro, o pub perfeito por muito tempo foi o Victoria, em frente ao Hyde Park, a 5 minutos de caminhada de onde morava. Depois, passou a ser o Royal Standard, em Greenwich, mais uma vez perto de casa.

O pub perfeito pode não existir da forma idealizada por Orwell, mas qualquer pub em que o cliente se sente tão confortável como se estivesse em casa é perfeito.

Leia o texto de Orwell sobre o pub perfeito (em inglês)