Os rosbifes

 "O the Roast Beef of Old England (‘The Gate of Calais’)", de William Hogarth

“O the Roast Beef of Old England (‘The Gate of Calais’)”, de William Hogarth

Se você é aquilo que você come, os franceses estão certos no apelido que deram aos ingleses no século XVIII, e que continua sendo usado de forma irônica até hoje: “les rosbifs”. A carne assada é tão importante para a dieta britânica que ela permeia algumas das características mais importantes do país, e se tornou um símbolo da Grã Bretanha em outras partes do mundo.

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“Rosbif”, é uma forma afrancesada de falar rosbife, que nada mais é de que uma versão aportuguesada de “roast beef”, carne assada. No Brasil existem versões servidas frias em sanduíches e em supermercados, que mais lembram embutidos sem muito sabor, e há quem prepare rosbifes em casa. Na versão inglesa, entretanto, é um pedaço grande de carne que acaba de sair do forno (depois de ser preparada em um espeto giratório, de preferência), e que é servida caramelizada por fora e mal passada e bem vermelha por dentro – sempre aos domingos.

Chamar os ingleses de “rosbifs se tornou uma marca dos ingleses na França no século XVIII justamente por ser uma forma de cozinhar muito popular. O estilo acabou sendo adaptado para o preparo de várias outras carnes”, explicou à rede BBC o linguista Richard Coates. Com o tempo, o termo se espalhou pela Europa e passou a ser usado também na Espanha e na Itália. E mesmo ingleses já se referiram a eles mesmos dessa forma, sem ser ofensivos.

A importância da carne para os ingleses está representada também no personagem do Yeoman of the Guard, o corpo de guarda-costas da monarquia britânica, que desde o século XV é popularmente conhecido como Beefeaters – comedores de carne. É daí que vem o nome de uma famosa marca de gin.

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Jane Grigson, principal autora de livros de gastronomia e pesquisadora de história da alimentação britânica escreveu que estrangeiros sempre admiraram a variedade, a qualidade e o baixo preço da carne inglesa. O rosbife se tornou um símbolo da riqueza e do poder da Grã Bretanha no século XVIII, e desde então havia muitos relatos sobre o fato de que se comia muita carne e de que ela estava disponível mesmo para classes econômicas mais baixas.

Antes mesmo do século XVIII, entretanto, o hábito britânico de comer carne assada já era tema de observadores internacionais. “É pratica comum, mesmo entre as pessoas mais ricas, comer um enorme pedaço de carne assada aos domingos. Eles comem essa carne até que não consigam mais engolir, e comem o restante frio no outros dias da semana”. A descrição é de um francês, Henri Misson, que visitou Londres em 1698 e criou um dos registros mais antigos da tradição do Sunday Roast.

Por ser o prato-símbolo da cultura britânica, o rosbife, a carne assada, foram exportados para vários lugares do mundo durante o Império Britânico. Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia e Austrália têm versões locais da carne assada tradicional da Inglaterra.

A reputação dos ingleses como comedores de carne se consolidou durante a era Elizabetana, no final do século XVI. Segundo historiadores, o médico Thomas Moffet escreveu na época recomendando que carne fosse produzida e consumida em excesso para diferenciar a Inglaterra do resto de Europa. Em 1817, William Kitchiner – autor do respeitado livro “Apicius Redivivus” (o oráculo do cozinheiro)- recomendava que as pessoas deveriam comer pelo menos 3 quilos de carne por semana para ter boa saúde.

A importância do rosbife para a cultura inglesa foi eternizada pelo escritor Henry Fielding, que no século XVIII escreveu uma balada patriotica chamada “The Roast Beef of Old England” (O rosbife da velha Inglaterra). A canção era parte da peça “The Grub Street Opera”, apresentada pela primeira vez em 1731.

A melodia da canção de Fielding para o rosbife se tornou uma marcha militar usada pela marinha britânica. A letra da canção trata da antiga tradição britânica e da mistura com influências francesas, que defendem a comida cozida em um ragu.

A primeira parte da canção diz algo como:

“Quando o poderoso rosbife era a comida dos ingleses,
ele enobrecia nossos cérebros e enriquecia nosso sangue.
Nossos soldados eram corajosos e nossa corte era boa
Oh! o rosbife da velha Inglaterra,
e o velho rosbife inglês”

A canção de Fielding também inspirou as artes. E em 1748 se tornou um quadro hoje célebre de William Hogarth chamado “O the Roast Beef of Old England (‘The Gate of Calais’)”.

O quadro está exposto atualmente na Tate Britain, um dos principais museus de arte britânica em Londres. Pintado depois de Hogarth ter ficado preso na França por suspeita de ser um espião inglês, o quadro é uma crítica do pintor à França. Ele retrata uma cena em Calais, porto francês mais próximo da Inglaterra, e mostra os franceses babando pelo pedaço de carne que vai virar refeição no Inn (pub da época) inglês da cidade. Um açougueiro cercado de soldados franceses com aparência triste é retratado no centro do quadro carregando um grande pedaço de carne enquanto um religioso bem acima do peso olha com cara de feliz para o que vai se tornar o almoço dos britânicos em território francês.

Ouça abaixo uma versão cantada da canção

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