A garota Jack e a pobreza na Inglaterra

Jack MonroeTerra com fama de ter a pior gastronomia do mundo, a Inglaterra gerou alguns dos nomes mais importantes da gastronomia global nas últimas décadas. Fergus Henderson é reconhecido por criar uma moda de aproveitar animais abatidos por inteiro (o chamado “nose to tail”); Heston Blumenthal foi premiado por suas pesquisas gastro-científicas que geram pratos deliciosos, e por pesquisar receitas históricas em seu Dinner, em Londres; Jamie Oliver, Gordon Ramsey e Nigella Lawson aparecem diariamente na TV, até no Brasil, ensinando receitas; e Delia Smith e Jane Grigson abriram espaço em toda a mídia de língua inglesa para falar de tradições alimentares na Europa. Mas o nome mais recente entre os ingleses a se destacar por seu trabalho com comidas surgiu na mídia somente em 2012, por conta da crise econômica global e da relação entre política e alimentação – é uma garota chamada Jack.

Jack Monroe tem apenas 26 anos e é uma das personagens mais interessantes da gastronomia no mundo atual. Em meio à crise econômica e à escalada global de preços de alimentação, ela enfrentou a pobreza com criatividade e habilidade na cozinha, se tornando uma referência em alimentação de qualidade a baixo custo, e referência em políticas relacionadas a pobreza e alimentação.

Tudo começou em novembro de 2011, quando a jovem Jack, mãe de um filho de apenas 20 meses, ficou desempregada. Ela passou a encarar então algo que para muita gente parece impensável: a realidade de que em um país rico e desenvolvido como a Inglaterra existe pobreza de verdade, e milhares de pessoas chegam a passar fome. Enquanto vivia com orçamento extremamente limitado, precisando vender tudo o que tinha para poder pagar o aluguel e comprar comida, Jack leu que um político local culpava as mães solteiras (junto com bêbados e drogados) pela crise econômica, como se essas pessoas não quisessem trabalhar e preferissem viver de programas sociais do governo (algo que lembra discussões sobre o assunto no Brasil). Como reação, Jack criou o blog “A Girl Named Jack”, em que começou a escrever sobre sua realidade, e a publicar as receitas que preparava com pouquíssimo dinheiro. Um de seus primeiros textos, hoje um manifesto sobre a pobreza na Inglaterra, tinha o título “Hunger hurts”, a fome dói.

O orçamento semanal de Jack para preparar comidas para ela e seu filho era de apenas 10 libras (R$ 40). Dividido por 3 refeições por dia e 7 dias, daria algo como 47 centavos de libra por refeição para duas pessoas – muito, muito, muito pouco.

Vivendo em Londres por um ano com orçamento de estudante bolsista, o Monstro descobriu que a melhor forma de economizar dinheiro com alimentação era comprando comida no supermercado e preparando as refeições em casa. Depois de conhecer melhor a realidade dos mercados britânicos, chegou à conclusão de que, para fazer uma boa refeição para duas pessoas, precisava gastar em média 4 libras (R$ 16) no supermercado. Jack tinha aproximadamente um décimo deste valor para comer cada refeição com seu filho.

A dificuldade serviu de inspiração para um belo tabalho com comidas. Em vez da baladalação de restaurantes e da exibição que costumam dominar blogs relacionados a comidas, Jack ensinava receitas de boas comidas que poderiam ser preparadas com baixo custo. Uma pizza de pesto por 44 centavos; hambúrguer de porco com ameixas por 87 centavos; massa com alho poró e queijo defumado por 43 centavos…

E logo ela começou a chamar atenção. A primeira reporagem sobre seu “trabalho” de mãe com orçamento limitado surgiu no “Daily Telegraph” em março de 2013. Ela era apresentada como exemplo na luta por dignidade na pobreza. Pouco mais de dois anos depois, os desabafos, as receitas e a perseverança de Jack a transformaram em colunista do jornal The Guardian, palestrante, presença constante na TV, autora de dois livros de receitas e ganhadora de prêmios de mulher do ano, de melhor blog e de símbolo de inspiração no país.

Atualmente, seus textos têm um alcance muito maior, e servem para chamar atenção para as pessoas com dificuldades. Além disso, ela ajuda a dar dicas sobre como economizar ao preparar comida, como fazer refeições de qualidade sem gastar muito. A cada data especial, como natal e reveillon, Jack escreve no Guardian com dicas e receitas para uma boa ceia mesmo para quem não tem muito dinheiro.

Jack se tornou famosa, mas continua sua campanha. Em uma palestra recente divulgada pelo Guardian, ela diz que não se tornou rica, e que continua lutando pelos que enfrentam dificuldades. Ao falar sobre a importância da relação entre comida e política, ela se emociona para lembrar que passou fome, e para criticar quem finge que não existe pobreza na Inglaterra.

É um projeto inspirador, que merece colocar a jovem ao lado dos grandes chefs ingleses na lista dos nomes mais importantes da alimentação no país.

Visite o blog de Jack Monroe

Leia a reportagem sobre Jack no Daily Telegraph

Assista a uma palestra de Jack Monroe no Guardian

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