Arquivo do mês: janeiro 2015

O melhor sunday roast de Londres

Rosbife do pub Jugged Hare

Rosbife do pub Jugged Hare

O Sunday Roast, carne assada servida aos domingos, é uma das mais fortes tradições gastronômicas da Inglaterra. Todos os domingos, famílias se reúnem em casa ou em pubs para comer o prato, em um costume parecido com o da feijoada brasileira.

Em vez de procurar o “melhor” sunday roast, o ideal é encontrar aquele que é mais tradicional para os ingleses. Assim como a melhor feijoada não é aquela do melhor (e mais caro) restaurante da cidade. A melhor é aquela comida em casa, ou no restaurante do bairro, ao longo de um dia inteiro com boa companhia e muita cerveja.

Rosbife do pub Bull and Last

Rosbife do pub Bull and Last

Sunday Roast é uma coisa “familiar”, que faz os britânicos relembrarem de casa, das avós, dos parentes reunidos. Até hoje ele ainda é comido em casa por muitos ingleses, mas a tradição ganhou as ruas e hoje faz parte do cardápio de bares e restaurantes de todo o país aos domingos.

Praticamente todos os pubs oferecem alguma forma de rosbife no almoço de domingo, e a tradição muitas vezes migrou da casa da avó para o pub da esquina. O pub já tem uma relação forte com seu bairro, e a vizinhança forma grande parte da clientela fixa. Como já dito antes, não existe mais um “melhor pub” para comer o assado.

O assado é servido aos domingos no horário de almoço. É comum que os pubs comecem a servir o prato ao meio dia, e mantenham ele no cardápio até o fim do dia – lembrando que a maior parte dos pubs serve comida de forma ininterrupta durante a tarde. Assim como a feijoada, entretanto, existe o momento ideal, o auge da qualidade da carne assada. Como o assado normalmente é preparado com um grande pedaço inteiro de carne, que vai sendo fatiado e servido à medida que o prato é pedido pelos clientes, é sempre bom evitar estar entre os primeiros ou os últimos a pedir, para pegar uma fatia do meio da carne, fugindo do exterior bem passado e das sobras ao fim do dia.

Uma outra questão importante é que o Sunday Roast tem fim. é muito comum que por volta das 16h do domingo os melhores restaurantes que servem o assado já não tenham mais nenhum pedaço da carne do dia. Nos lugares em que o dife é feito no dia, o prato deixa de ser servido na hora em que a carne acaba.

Alguns pubs de Londres, é verdade, têm um apego menor à qualidade do assado. Os pubs da rede Taylor Walker por exemplo, me deixaram com uma opinião muito baixa de toda a rede por terem servido um assado sem graça, com muita cara de ter sido requentado no microondas. Alguns pubs assim são capazes de oferecer o Roast em qualquer dia e horário, mas a chance de ser uma boa carne recém-preparada é muito baixa.

Ainda assim, não faltam listas e rankings dos melhores da cidade. Isso é especialmente bom para turistas que vão ficar pouco tempo na cidade e querem experimentar o prato – e não necessariamente comer um mais simples em um pub de bairro, algum dos não premiados onde a comida pode não ser tão boa, mas a experiência é mais autêntica.

Entre os rosbifes mais premiados de Londres estão:

Anchor & Hope
Um dos gastropubs mais premiados de Londres, tem um almoço de domingo bem elogiado – e o almoço do fim de semana é a única hora em que ele permitem reservar mesas.
36 Waterloo Road SE1 8LP

Bull and Last
Outro gastropub que faz parte de todas as listas de melhores lugares para se comer em Londres. O almoço de domingo faz parte da tradição do bairro de Hampstead Heath, cujo parque fica cheio nos finais de semana.
168 Highgate Road NW5 1QS

Hawksmoor
Nem tanto pub o local é um dos restaurantes especializados em carnes mais premiados em Londres. Os preços são um pouco mais salgados, mas a carne é muito bem feita.
11 Langley Street WC2H 9JG

The Jugged Hare
Os espetos girando com a carne assando são visíveis aos clientes deste pub que tem no domingo seu principal dia. Vale reservar com antecedência para comer o rosbife.
49 Chiswell St EC1Y 4SA

The Spaniards Inn
Mais um pub histórico em Hampstead Heath, com rosbife elogiado.
Spaniards Rd NW3 7JJ

Roast
Restaurante que fica dentro do Borough Market e que tem como rosbife o carro-chefe. Costuma ser um dos melhores lugares para se comer carne em Londres, mas também tem preços bem acima dos pubs (o assado completo para duas pessoas custa mais de 70 libras).
The Floral Hall, Borough Market, Stoney Street SE1 1TL

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Onde comprar e comer carnes de caça em Londres

Teal, um pequeno pato servido no St. John

Teal, um pequeno pato servido no St. John

Veja abaixo uma lista de restaurantes e lojas especializadas em carnes de caça em Londres

St John – Um dos melhores e mais aclamados restaurantes de Londres, o St. John foi criado como sendo a casa do “nose to tail”, o costume de preparar todos os cortes de animais abatidos. Prepara vários cortes de carne de caça, como patos selvagens, galinholas e cervos. Não chega a ser um restaurante barato, mas uma refeição completa (e memorável) para duas pessoas pode sair por menos de 100 libras.
26 St. John Street – EC1M 4AY

O pub Chelsea Ram

O pub Chelsea Ram

Chelsea Ram – Este pequeno gastropub de bairro no meio de Chelsea tem boas cervejas, ambiente agradável e costuma aparecer cortes de caça especiais da estação, como peitos de pombo muito bem preparados em pratos servidos a preços de pub (entre 10 e 15 libras pela refeição completa).
32 Burnaby St, SW10 0PL

Jugged Hare – Sempre listado entre os melhores gastropubs de Londres, premiado por seu rosbife de domingo, este local tem o nome inspirado em um prato de lebre, uma das carnes que fazem parte do cardápio. O ambiente é decorado com animais empalhados e o cardápio inclui várias opções de caça. O Jugged Hare organiza até festivais sazonais para celebrar as aves de caça.
49 Chiswell St EC1Y 4SA

Vista do restaurante Galvin at Windows

Vista do restaurante Galvin at Windows

Galvin at Windows – Restaurante de luxo localizado no 28º andar de um hotel, com excelente vista de Londres, costuma incluir carnes sazonais de carne no menu, que custa até 95 libras por pessoa no jantar. É uma das experiências para quem não se preocupa com o preço e busca boa comida e serviço cheio de pompa.
Hilton Park Lane W1K 1BE

Rules – Restaurante mais antigo de Londres (ao menos no formato de restaurante formal), o Rules tem um cardápio tradicional britânico com uma seção inteira dedicada a carnes de caça. Faisão, pato selvagem, perdiz, galinhola, lebre e cervo são oferecidos em diferentes preparos. Cada prato custa entre 20 e 30 libras.
35 Maiden Lane, Covent Garden, WC2E 7LB

Borough Market – O principal mercado de comidas de Londres, e grande centro de turismo gastronômico da cidade, tem meia dúzia de lojas especializadas em carnes de caça. Logo ao entrar na área em que ficam as lojas de carnes, é fácil perceber aves, coelhos e lebres, ainda com penas e pele, pendurados para que a carne fique naturalmente maturada. É possível comprar cortes tratados de qualquer um dos animais de caça, e os vendedores sempre dão boas dicas de como preparar em casa. Pela experiência pessoal, a loja Furness é a mais completa e com ótimos preços, mas vale pesquisar antes de decidir.
8 Southwark St SE1 1TL

Harrods – A área de comidas da luxuosa loja de departamentos que virou atração turística tem um açougue bem completo, oferecendo cortes básicos de carnes, mas quase sempre com cortes de carne de caça bem tratados. É fácil de achar especialmente as mais “chiques”, como perdiz e faisão, além de filé de cervo.
87-135 Brompton Rd, London SW1X 7XL

Glossário de carnes de animais de caça da Inglaterra

juggO Monstro já comentou que o cardápio inglês inclui várias carnes de animais “selvagens” que são caçados legalmente no país. A lista abaixo explica quais são as principais carnes de caça que podem ser encontradas em Londres.

Leia mais sobre a importância da caça na alimentação inglesa

Grouse assado servido no restaurante St. John

Grouse assado servido no restaurante St. John

Grouse – Simplesmente traduzir o nome desta ave bem comum na Inglaterra pode não ajudar muito. O nome do grouse em português é tetraz, e ele lembra um pouco um faisão, mas também é próximo de um galo selvagem. O grouse tem uma carne escura e sabor muito, muito forte. Sua carne costuma passar por um processo de maturação natural e ficar com um dos sabores mais acentuados, próximo até mesmo de um sabor estragado – o que é considerado uma iguaria.

Hare – Parte de uma expressão bem popular no Brasil, em referência a pessoas que são enganadas, o termo é referência a lebres (e não gatos), que são parte do cardápio de caças no Reino Unido. Muito parecidas com coelhos, elas têm carne mais escura e com sabor mais intenso.

Mallard, ou Wild Duck – Patos selvagens são menores e mais magros de que os patos criados em fazendas. A carne é bem mais escura e o sabor pode variar por conta da alimentação deles, chegando até mesmo a toque mais próximos de frutos do mar.

Perna de lebre servida no restaurante Rules

Perna de lebre servida no restaurante Rules

Partridge – Bem menos exótico para paladares brasileiros, esta é a perdiz, pequena ave de carne branca e de sabor suave, que costuma ser preparada grelhada.

Pheasant – Talvez a mais comum das aves de caça, o faisão é admirado por sua beleza e sua carne é considerada uma iguaria em várias culturas diferentes. A importância do faisão na gastronomia é tão grande que é dele que vem o termo francês “faisander”, que significa deixar o animal caçado pendurado por um tempo para que sua carne possa maturar naturalmente, para ficar mais macia e mais saborosa.

Pigeon, wild pigeon ou wood pigeon – Familiar, mas raramente pensado como comida quando visto no Brasil, o pigeon nada mais é de que o pombo, esses animais que parecem pragas. O pombo usado na cozinha não é exatamente o mesmo que se vê nas cidades, mas uma variação um pouco maior que fica mais em áreas menos urbanas. Em português, seu nome é pombo-torcaz, e sua aparência é bem parecida com a do pombo comum (ou doméstico). Peitos de pombo são muito populares em Londres e têm uma carne muito vermelha e suculenta, com sabor surpreendentemente bom.

Quail – Pequena e de sabor marcante, esta é a codorna, que é até comum no Brasil também. Não é das carnes de caça mais populares da Inglaterra.

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Venison – Mais popular e fácil de encontrar entre as carnes de caça britânicas, venison é a carne de veados e cervos caçados ou abatidos em fazendas especiais do país. A carne é bem vermelha e magra, normalmente preparada grelhada e servida mal passada. É macia e tem sabor suave.

Wild boar – Menos estranho ao paladar brasileiro, este é o nome dado aos javalis, porcos selvagens encontrados na Inglaterra. A carne lembra muito a de porco, mas mais escura e menos gorda.

Wild rabbit – Coelhos selvagens se reproduzem com facilidade e podem se tornar pragas em regiões mais rurais do Reino Unido, por isso sua caça pode chegar até a ser incentivada. A carne deles, assim como a das lebres, é mais escura e tem sabor mais forte de que a dos coelhos criados em cativeiro.

Woodcock

Woodcock

Woodcock – Mais rara, esta é a galinhola, ave com um longo bico que lembra um pica-pau, mas ela é maior. O preparo da galinhola na cozinha tem características estranhas, pois a ave não costuma ser aberta para que suas entranhas sejam retiradas, e muitos puristas acreditam que preparar a ave assim aprimora seu sabor.

Jogo de caça e caçador

Faisão exposto em açougue de Greenwich

Faisão exposto em açougue de Greenwich

Um susto marcou um almoço no agradável pub Chelsea Ram, em uma rica região de Londres. Ao morder o pedaço da deliciosa carne preparada na brasa, o dente bateu em algo que parecia uma pequena pedra, bem dura, por pouco não machucou. Ao separar o pequeno pedaço, uma pequena esfera de metal se revelou no lugar do que parecia uma pedra. Era chumbo, parte da munição usada para abater o pombo, animal cuja carne havia virado refeição.

Bala de chumbo achada em carne de pombo

Bala de chumbo achada em carne de pombo

Apesar do susto, o caso não foi lá tão isolado. O cardápio do ótimo restaurante St. John, por exemplo, tem um alerta logo na sua página inicial, avisando que não se pode garantir que algumas carnes estejam completamente livre de pedaços de chumbo. É o preço que se paga para entrar em um dos costumes mais interessantes da alimentação inglesa, o de comer carnes de caça.

Carnes de animais selvagens abatidos de forma legal e regulamentada fazem parte do cardápio tradicional britânico. É um costume antigo, moralmente aceitável, que continua sendo valorizado, e que oferece uma experiência gastronômica muito distante da realidade brasileira. São carnes bem diferentes, com texturas e sabores que fazem bifes de vaca e porco parecerem repetitivos e sem graça.

Jogo apetitoso

“Game”, palavra facilmente traduzida para o português como “jogo”, é o termo usado no sentido culinário na Inglaterra para se referir a animais selvagens, aves e peixes, caçados – seja por sua carne para a alimentação, seja por esporte.

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Filé de cervo no pub Jugged Hare

Falar sobre caça de animais é entrar em um forte debate sobre ética e moral. Para muitas pessoas, o abate de bichos selvagens é absurdo, e os caçadores deveriam ser punidos. Pensar o ataque a animais como lazer realmente é algo bizarro e altamente condenável, é verdade. Sob o ponto de vista da alimentação, entretanto, a caça de animais pode ser justificada como uma das formas mais naturais, sustentáveis e até menos crueis de se obter carnes para consumo.

O escritor americano Michael Pollan fala um pouco sobre isso em “O Dilema do Onívoro”, em que conta como preparou uma refeição inteira sem depender de ingredientes comprados ou industrializados (usando vegetais plantados em casa, cogumelos colhidos e carne de porco selvagem caçado). Ao considerarmos o estado atual da produção industrial de carnes, em que os animais são criados de forma cruel e abatidos com violência, é possível pensar que a caça de um animal em idade adulta, após viver livre, e cuja carne vai ser usada totalmente na alimentação, sem desperdício é uma forma mais “humanizada” de obter carnes. Não é lazer, não é esporte, é uma fonte diferente, mais natural, de carnes para a alimentação. Como onívoro, é natural aceitar que esta carne faça árte do cardápio sem rejeitar completamente a ideia da caça.

Peito de pombo com couscous

Peito de pombo com couscous

Há uma forte regulamentação por trás da caça na Inglaterra, justamente para evitar que ela se torne banal e que ponha em risco as espécies que servem à alimentação. Isso faz com que a oferta de carnes de caça seja sazonal, aparecendo apenas em determinadas épocas do ano. Além disso, há uma restrição em relação ao local em que ela pode acontecer. Em muitos parques, até mesmo em Londres, os animais são protegidos e não podem ser abatidos – mas podem ser visitados e vistos em um ambiente natural.

Aqueles animais que ficam soltos nos grandes parques de Londres (e no resto do país) e que os turistas adoram ver e fotografar são protegidos e não podem ser caçados. No início de 2014, um imigrante turco foi preso em Hildenborough, ao sul de Londres, depois de matar um cisne e levar para casa para comê-lo. O homem de 46 anos foi fotografato atacando o animal e colocando sua carcaça em uma mochila. Ele foi detido pela polícia e foi obrigado a pagar multas no valor de 225 libras, mas foi liberado em seguida. Ele alegou não saber que era proibido caçar os cisnes, e que queria experimentar sua carne, que é “gostosa”.

O problema é que além de ser proibido caçar sem seguir as regras, todos os cisnes não marcados (aqueles que vivem soltos, e não em parques controlados) pertencem à Rainha, e a caça deles é ilegal. Matar um cisne pode dar penas de até seis meses de prisão e até 20 mil libras em multas.

O conceito do termo “game” mudou ao longo da história, já que alguns países passaram a criar animais em ambientes selvagens para poder “domesticar a caça”. Dessa forma, o termo “game” passou a ser aceito apenas para a caça de animais realmente selvagens, soltos e livres. A questão é mais ligada à gastronomia de que à moral, já que acredita-se que a carne de animais realmente selvagens tem uma maior qualidade, com sabor mais natural, de que a de animais domesticados.

Carnes de caça têm um sabor diferente daquele encontrado em carnes de animais criados para abate – tanto por serem animais mais ativos quanto por conta da idade do animal, da alimentação dele, que é feita livremente, e não com ração, e da forma como a carne é tratada após o abate do animal. Além de ser uma carne mais magra, a gordura que existe normalmente é eliminada por não ter sabor muito agradável.

Na África, o termo é usado para qualquer tipo de caça, mas no Reino Unido ele é aplicado de acordo com a lei que regulamenta a caça no país – apenas alguns animais podem ser caçados e apenas em determinadas épocas do ano – Veja a seguir um glossário com a lista dos principais animais caçados na Inglaterra.

Carne (quase) estragada

Em um jantar no restaurante St. John, um dos melhores lugares para experimentar carnes exóticas em Londres, parte da coxa de uma ave servida assada tinha um cheiro estranho, acentuado, parecendo estar estragada. O sabor dos pedaços de peito comidos até então estava delicioso, mas não tinha jeito de não pensar que havia algo podre no restante da carne. Esse estranhamento é parte da falta de costume com um hábito que faz parte do costume de comer animais de caça, especialmente aves, a faisandage – manipulação que na verdade serve para melhorar o gosto das carnes, transformando-as em iguarias gastronômicas.

“Faisander” é o ato de conservar um animal abatido para amaciar a carne e intensificar o sabor O verbo em francês significa literalmente “pendurar a carne”, deixando-a maturar naturalmente para que o começo do processo de decomposição aprimore seu sabor e deixe a carne mais macia. O termo também existe em português, segundo o dicionário Aulete. A palavra “faisandé” (pronuncia-se fesandê) significa carne de caça que se deixa propositalmente chegar ao início da decomposição para ser degustada.

A prática é muito antiga, e envolve técnicas especiais para cada tipo de animal. Se cortados de forma prematura, carnes de cervos, por exemplo, podem ter um sabor muito similar à carne de vaca, vermelha e magra. Tratados da forma mais tradicional, maturados, os cortes adquirem um sabor de caça mais intenso, bem diferente da carne de animais domésticados.

Segundo Harold McGee, um dos maiores pesquisadores sobre a ciência por trás da comida e autor de “On Food and Cooking”, a técnica surgiu no passado, e deixava-se a carne chegar bem perto de apodrecer antes que ela fosse consumida, o que deixava o sabor mais intenso e mais ao paladar da época. Hoje em dia o paladar não lida mais tão bem com o gosto da carne de caça excessivamente maturada, ele explica, o que faz com que a maturação ocorra de forma controlada e por menos tempo.

“Assim como queijo e vinho, carnes se eneficiam de um certo período de envelhecimento, ou mudança química lenta, durante a qual elas se tornam progressivamente mais saborosas. Carnes também ficam mais macias. No século XIX, carne de boi e de carneiro ficavam em temperatura ambiente por dias ou até semanas, até que sua parte externa estivesse literalmente apodrecida”, diz.

A técnica é sempre liada a Brillat-Savarin, autor de “A Fisiologia do Gosto”. Antonin Carême, chef que criou a alta gastronomia, dizia que a maturação deveria ir o mais longe possível.

McGee menciona todos os nomes científicos das enzimas envolvidas e explica que quando um animal é abatido, suas células param de funcionar e as enzimas dos músculos passam a atacar as células da carne, quebrando grandes moléculas sem gosto e transformando-as em fragmentos cheios de sabor, quebrando proteínas e transformando-as em aminoácidos e quebrando glicogenio em glucose. Este processo contribui para dar um sabor melhor às carnes e deixá-las mais macias e suculentas.

No caso da caça, o processo é especialmente necessário porque os animais caçados costumam ser mais magros, mais velhos e mais ativos de que os criados em cativeiro, o que deixaria sua carne quase incomestível de tão dura..

O costume soa estranho, mas é algo muito parecido com o que ocorre com carne de gado, que é maturada de forma controlada, a baixas temperaturas e a seco, para que a carne desenvolva um sabor e maciez especiais, sem permitir que a carne apodreça.

Brincando de casinha

Sanduíche de bacon e cheddar da casinha verde de Greenwich

Sanduíche de bacon e cheddar da casinha verde de Greenwich

O melhor sanduíche de bacon de Londres provavelmente não está em nenhum restaurante ou lanchonete especializada. O melhor lugar para encontrar um lanche rápido e barato acompanhado de um bom chá pela metrópole inglesa são pequenas casinhas pintadas de verde e instaladas em calçadas ou mesmo no meio da rua. Pode perguntar a qualquer taxista da cidade, eles conhecem bem estas cabanas – afinal, elas foram construídas para eles, tanto que seu nome é cabmen shelter (abrigo de taxistas).

Casinha verde - Abrigo de taxistas de Notting Hill

Casinha verde – Abrigo de taxistas de Notting Hill

Essas casinhas verdes fazem parte do cenário londrino há 130 anos. É tanto tempo, que os taxistas para os quais elas foram pensadas não dirigiam carros, mas guiavam carruagens puxadas por cavalos transportando pessoas pelas ruas da cidade no final do século XIX. Os abrigos foram criados em uma época na qual os “motoristas” dos “táxis” ficavam do lado de fora de carruagens, guiando os cavalos que puxavam a carroça. Por ficarem expostos às intempéries, passou a ser necessário criar um abrigo para eles.

Hoje em dia é fácil ver os abrigos em diferentes partes da cidade. Há pelo menos 13 deles em funcionamento, além de algumas cabanas independentes que copiam o modelo, e muitas vezes é o cheiro de bacon, ovos e linguiça que eles espalham pelas ruas que atrai os olhares a ele. Dentro das pequenas casinhas, há uma cozinha funcional preparando sanduíches, cafés da manhã, lanches, chá e café. Tudo vendido por preços relativamente baixos – alguns sanduíches custam apenas 2 libras.

O Monstro frequentou a casinha que ficava ao sul do parque de Greenwich. Quando andava pelo parque, já sentia o cheiro de vinha de lá, ajudando a abrir o apetite. O sanduíche de lá foi preparado com o bacon inglês, que é diferente do bacon que se conhece no Brasil via EUA, e inclui uma parte da barriga e outra do lombo do porco (meio bacon, meio lombo canadense). Este bacon com mais carne e menos gordura é preparado na chapa até ficar bem caramelizado e depois colocado dentro de um roll, o equivalente local ao pão francês. Fica uma delícia e serve como café da manhã ou como lanche.

Lanchonete em casinha verde no meio da rua em Londres

Lanchonete em casinha verde no meio da rua em Londres

Além do abrigo de Greenwich, há mais de uma dezena dessas casinha facilmente reconhecíveis por outras partes da cidade. Na região central de Londres, há uma ao lado da estação de trem de Temple, outra em Embankment e ainda em Grosvenor Gardens e na Kensington Road. Não é nada requintado ou especial, mas o melhor tipo de comida de rua que existe, daquela que se encontra por acaso, na hora da fome, e que deixa mais feliz de que uma refeição completa.

Quando vir uma dessas casinhas pela cidade, pode saber que ali tem boa comida. Não é exatamente uma opção de gastronomia turística, mas é uma das comidas que melhor representa a dieta tradicional londrina – pelo menos a dos profissionais que rodam a cidade dirigindo.

Drive thru vitoriano
As casinhas verdes foram criadas como uma versão prévia dos atuais drive thrus – comida vendida para quem está de passagem. Como os motoristas de táxi de 130 anos atrás não podiam “estacionar” e deixar o veículo para poder ir comer, as cabines passaram a servir como fonte de alimentos para esses trabalhadores. Tudo parte do trabalho de uma entidade filantrópica criada em 1874, a Cabmen’s Shelter Fund, que arrecadou fundos para criar as lanchonetes para oferecer comida barata aos taxistas.

Imagem histórica da cabine servindo a taxistas de carruagens

Imagem histórica da cabine servindo a taxistas de carruagens

No final do século XIX, a lei londrina obrigava os taxistas da época a ficar com seu cavalo e sua carruagem o tempo todo, mesmo em caso de chuva. Dessa forma, esses profissionais do transporte publico ainda rudimentar tinham dificuldade de encontrar abrigo ou um lugar para comer, a não ser que pagassem a alguém que cuidasse do seu “táxi”. Isso levou um grupo de filantropos a criar o fundo dos abrigos de taxistas, que construiu 60 cabanas verdes nas ruas de Londres entre 1875 e 1914.

Bebidas e jogos sempre foram proibidos. Na verdade, um dos objetivos da criação dos abrigos era evitar que os taxistas consumissem bebidas alcoólicas por conta do frio.

As casinhas foram construídas no meio de ruas e avenidas, e não podiam ser maiores de que a carroça que servia de táxi na época. Apesar de serem pequenos, os abrigos chegavam a abrigar 12 pessoas de uma só vez, oferecendo abrigo para chuva e frio, comida, livros e jornais.

A maioria dos 60 abrigos construídos na virada do século deixou de existir. Alguns foram atingidos por bombas durante a Segunda Guerra Mundial, outros foram removidos por conta de reformas nas ruas de Londres, e muitos deixaram de ter importância por conta do desenvolvimento de carros mais bem estruturados e confortáveis, nos quais os taxistas ficam protegidos do mau tempo – e que podem ser estacionados e deixados em qualquer lugar. Isso fez com que os abrigos tivessem se tornado um local de sociabilização, mais de que de proteção contra o frio.

Todas as cabanas são do mesmo tamanho, o mesmo que foi desenhado para ser equivalente a uma carruagem pequena. Até hoje eles ainda têm canos de ferro que originalmente serviam para prender os cavalos.

Na virada do século XIX para o XX, era comum que os taxistas da época carregassem consigo suas próprias xícaras de chá, ou que tivessem sua xícara pessoal guardada na cabana que mais frequentava.

Casinha verde de Russel Square

Casinha verde de Russel Square

Ponto de encontro
Além de fornecer comida barata para os motoristas de táxi, os abrigos se tornaram pontos de encontro para esses profissionais, que têm uma rotina de trabalho bastante solitária, mas que se encontram para conversar e tomar um chá nas pequenas casinhas verdes.

Segundo a rede BBC, as cabanas construídas em madeira continuam sendo frequentadas especialmente por taxistas. Apesar de ser associado a taxistas até os dias de hoje, as cabanas são abertas para qualquer cliente, e é um dos lugares onde se pode encontrar alguns dos sanduíches mais baratos da cidade, além de bom chá e café.
O Cabmen’s Shelter Fund, entidade sem fins lucrativos, é responsável pelas cabines atualmente, assim como desde sua criação. Os abrigos recebem ainda fundos de loterias britânicas, garantindo sua manutenção e o registro da sua importância histórica para Londres.

Atualmente, segundo o Cabmen’s Shelter Fund, 13 cabines continuam em funcionamento em Londres – O site do Fundo não conta, entretanto, com a cabine de Greenwich, um importante ponto de apoio para taxistas no Sudeste de Londres.

Veja a lista completa dos locais onde cabanas verdes funcionam.

Chelsea Embankment – Albert Bridge
Embankment Place
Grosvenor Gardens
Hanover Square
Kensington Park Road – em frente aos números 8-10
Kensington Road – lado norte
Pont Street
Russell Square
St George’s Square, Pimlico
Temple Place
Thurloe Place, Kensington
Warwick Avenue
Wellington Place, St John’s Wood

Assista abaixo a um vídeo da BBC sobre as casinhas verdes (em inglês)