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Run, tourist, run

A Times Square é o paraíso dos turistas e dos restaurante em estilo casual diner, com temas característicos, comida plastificada e sem muita graça a preços relativamente baixos – refeições familiares para os milhões de viajantes norte-americanos que são a maior parte das pessoas que passam por ali todos os anos. Em poucos quarteirões, reúnem-se Friday’s, Applebees, Planet Hollywood, Hard Rock Café, Red Lobster, Ruby Tuesday, Olive Garden e o Bubba Gump. Em todos eles é possível ter refeições minimamente respeitáveis por menos de U$ 30 por pessoa, mas nenhum oferecerá nada absurdamente memorável.

Cada mesa do Bubba Gump tem uma plaquinha com tema do filme que é usada para chamar a atenção dos garçons

Algumas dessas redes internacionais de restaurantes padronizados são grandes e têm lojas até no Brasil, mas outras são menores. Um dos que é mais a cara da praça onde ficava o jornal “New York Times” no passado é também um dos restaurantes de temas mais bizarros, o Bubba Gump. O estranho dele é que o tema escolhido foi o filme Forrest Gump, que inspira o nome do restaurante, sua decoração, o cardápio e até o atendimento. O lugar é tão voltado a turistas que todo mundo que chega no restaurante é recebido com boas vindas acompanhadas de uma pergunta sobre olugar onde vivem, já que nenhum nova-iorquino vai lá.

Toda a decoração segue temas relacionados ao filme Forrest Gump

O Bubba Gump tem mais de 30 lojas espalhadas por diferentes países, especialmente os Estados Unidos. A rede foi criada em 1996, dois anos após o lançamento do filme, e tira o nome da parceria entre o personagem principal e seu amigo Bubba, que aparece no filme falando sobre a tradição de pesca de camarão e as formas de preparar o crustáceo. Daí sai a maior parte do cardápio do restaurantes, que se diz especializado em camarão e tem isso em quase todos os pratos. A empresa dona da rede alega que a ideia de abrir os restaurantes veio do estúdio que lançou Forrest Gump, e por isso todos os temas do Buba Gump têm a licença de serem relacionados com o filme.

O prato com camarões grelhados, linguiça e purê, mais bonito de que bom

Para quem apenas está no centro turístico de Nova York e quer comer bem, por mais curioso que pareça ao tema do Bubba Gump, a preocupação deles é mais com a ligação com a história do filme de que com a qualidade da comida em si. Muitos pratos até soam interessantes, mas a comida não passa de regular.

O Monstro visitou o restaurante e experimentou um prato em que randes camarões eram grelhados na churrasqueira e servidos com purê de batatas, linguiças francesas e um molho apimentado (cerca de U$ 20). Os camarões tinham um tempero bom, mas pareciam ter sido congelados, sem a textura deles frescos. O resto do prato não chamava nada a atenção.

O sanduíche de peixe frito, crocante e melhor de que os camarões

A esposa fugiu dos crustáceos e pediu uma das poucas opções sem eles, o fishwich, um sanduíche de peixe frito que era quase um fish and chips. O peixe estava saboroso e com capinha bem crocante, melhor de que a especialidade da casa, e o prato era imenso por cerca de U$ 15.

A comida estava ok, e o preço era relativamente baixo em comparação com outros restaurantes de verdade, mas refeição não foi nada memorável, e a decoração chama mais atenção de que o próprio camarão. É um lugar muito mais para um passeio bem turístico de que para comer bem.

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Pé na areia de Manhattan

Um pedaço do sul da ilha de Manhattan costuma ser comparado a Miami. Com uma rua fechada para trânsito formada por lojas e restaurantes de todos os lados e um pequeno shopping entrando pelo East River na ponta, o Píer 17 tenta criar uma pequena praia no meio da cidade. O clima montado é totalmente artificial e chega a ser engraçado, mas a verdade é que sentar no bar que simula praia com areia no chão e coqueiro artificial e combater o calor com uma cerveja pode ser uma experiência deliciosa.

A praia artificial do Píer 17

O Píer  é o ponto de partida dos passeios de barco em torno de Nova York. Ali é possível ver centenas de turistas em grandes grupos sendo levados como gado de um lado para o outro, e finalizando o tour com tempo livre para ir nas lojinhas de suvenires da região.

Bares do Píer

Mas o lugar também serve para comer, mesmo que não seja um ponto exatamente valorizado pela alta gastronomia. O próprio bar de praia oferece comidas básicas, como sanduíches e batatas fritas, que acompanham bem as cervejas.

Região de onde saem os passeios de barco do Píer 17

A maior parte dos restaurantes de verdade fica do lado sul do píer. Eles disputam os turistas com ofertas de preços baixos e cardápios com frutos do mar, mas nenhum deles merece uma menção mais honrosa da crítica gastronômica. Dentro do pequeno shopping, há uma praça da alimentação com opções mais ligadas à fast food e a preços mais baixos.

A parte de cima do Píer

A região do South Seaport, como são conhecidos o píer e a rua, fica no mesmo lugar em que existiu um dos primeiros e mais importantes mercados de comidas de Nova York, o Fulton Market, e do lado de uma enorme peixaria antiga, mas a região se condolidou atualmente só como shopping realmente.

Praça da alimentação dentro do shopping

O Píer 17 pode não ser o melhor lugar para comer bem, ou para conhecer a verdadeira Nova York, mas oferece um clima bem agradável e divertido para quem decide enfrentar a Miami local por uma tarde.

A rua fechada para trânsito do South Seaport, um pedaço de Miami em NY

Serviço:
South SeaPort

Aristocracia de restaurantes

A cena gastronômica de Nova York é dominada por uma pequena aristocracia. Uns poucos chefs e empresários detêm a propriedade dos restaurantes mais relevantes da cidade e levam quase todos os prêmios locais e internacionais voltados à comida, deixando pouco espaço para pequenos empreendedores.

Por um lado, investidores inteligentes fazem negócios de forma inteligente e inauguram restaurantes de temas e sabores variados contratando os melhores chefs e administradores para coordenar o trabalho – é o caso de Keith McNeelly e Danny Meyer, cada um com uma dezena de restaurantes. Por outro, sempre que algum chef faz sucesso com seu restaurante, é normal ele abrir outros em uma rede similar, repetindo a fórmula a fim de aproveitar a atenção positiva – como acontece com David Chang e Mario Batalli. Para completar o domínio de grandes nomes da gastronomia, os poucos outros restaurantes “independentes” que conseguem fazer muito sucesso e serem premiados muitas vezes são parte de projetos multinacionais, como acontece com Thomas Keller, Nobu e Gordon Ramsay.

Parte disso é causada pela grande demanda de Nova York por bons restaurantes, e parte pelo fato de os nova-iorquinos serem acomodados e mimados, e quererem os melhores restaurantes em sua esquina, buscando não ter que se deslocar pela cidade. Existe demanda para cada vez mais restaurantes, mas eles podem ser menores e ter várias sedes espalhadas em diferentes bairro.

O “Wall Street Journal” diz que Danny Meyer é tão poderoso quanto o prefeito da cidade, Michael Bloomberg. Com onze “palácios” espalhados por Manhattan, Meyer domina o paladar nova-iorquino com comidas variadas que vão desde o simples cachorro-quente, ou do hambúrguer, até a mais refinada alta gastronomia de restaurantes premiados internacionalmente.

Danny Meyer é o “dono” do Union Square Hospitality Group, empresa que de fato assume a responsabilidade por tantos restaurants premiados. São dele as lanchonetes da rede Shake Shack, que estão se espalhando pela cidade com um hambúrguer simples e gostoso que costumava formar filas de até uma hora na Madison Square. O foco ali são milk shakes, cachorros-quentes e especialmente hambúrgueres. O sanduíche de fato é gostoso, mas caiu num clima de ser considerado por várias pessoas o melhor da cidade, criando um marketing sem tamanho para ele e gerando necessidade e mais lanchonetes.

Meyer tem também o 11 Madison Square, restaurante estrelado pelo guia Michelin e que ficou em 50º lugar na lista de melhores restaurantes do mundo da revista “Restaurant”. Ele tem também os restaurantes e cafés do Museum of Modern Art, incluindo o excepcional The Modern, com comida deliciosa e delicada a preços altos, mas acessíveis.

Completam a rede dois favoritos dos nova-iorquinos que acabam não ganhando tanta atenção de turistas: O Gramercy Tavern e o Union Square Café. Mais simples e com uma cozinha refinada, mas não em excesso, esses dois restaurantes costumam ficar em primeiro e segundo lugar na avaliação dos leitores e críticos independentes do guia Zagat, muitas vezes chamado de bíblia da gastronomia da cidade.

Não acredita? Então olha aí também…
WSJ faz tou por todos os restaurantes de Meyer

O empreendedor de estrelas e o hambúrguer perfeito

Ele não é chef de cozinha, não inventa pratos, não mexe no cardápio, não usa avental sujo e ainda assim é uma das pessoas mais poderosas da gastronomia de Nova York. Onde Keith McNally vai, a nata do poder político, econômico e cultural da Grande Maçã vão atrás, assim como os turistas que visita a cidade. McNally coleciona fãs entre os clientes e divide opiniões entre os críticos, arrecadando ataque a alguns de seus empreendimentos e elogios efusivos a outros.

Keith McNally, durante as obras para montar sua pizzaria, Pulino, aberta em 2010

É dele um dos restaurantes mais badalados pelos guias de turismo, o bistrô francês Balthazar, assim como a padaria deste restaurante e seu “concorrente” pelo sabor francês, o Pastis. Também é dele o italiano Morandi, a pizzaria Pulino e alguns bares, assim como leva sua assinatura o retrô Minetta Tavern, que o crítico do “New York Times” diz ter a melhor carne da cidade e a “Time Out” diz ter a melhor comida nova-iorquina, elegendo o hambúrguer dali como o que há de mais importante em toda Nova York.

O hambúrguer Black Label do Minetta Tavern, melhor comida da cidade segundo a revista "Time Out" (foto da Time Out)

Nascido em Londres, McNally se mudou para os Estados Unidos em 1975 querendo se tornar diretor de teatro. O projeto não deu certo e ele acabou escalando a hierarquia de restaurantes e se tornando muito popular por sua coleção de amigos “importantes” no mundo da moda e do entretenimento. Quando abriu seu primeiro restaurante, o Odeon, o público foi atrás dele, e tem feito isso a cada novo empreendimento.

Por mais variados que sejam os perfis dos restaurantes dele, os projetos de McNally sempre criam uma atmosfera teatral, como se transportasse o comensal a um outro mundo. Com serviço impecável e comida minimamente boa em todos os restaurantes, ele se consolida como um investidor ativo, sempre de olho em novos negócios. Ele “combina em seus restaurantes o equivalente de grande bilheteria de cinema com séria fidelidade dos foodies”, diz Frank Bruni, do New York Times. Não são necessariamente os melhores restaurantes da cidade, mas são ótimos restaurantes com um público maior de que os mais premiados.

O Monstro visitou alguns dos restaurantes de McNally, e também encontrou situações dúbias. Por mais frustrado que tenha ficado no Balthazar, que lhe parece sobrevalorizado, ficou impressionado muito positivamente com o Minetta Tavern, restaurante inaugurado em 2009 na região da rua Bleecker, em Downtown.

O Minetta Tavern havia entrado na lista de restaurantes a serem conhecidos porque a “Time Out” dizia que o hambúrguer Black Label servido ali era melhor de que qualquer outra comida servida na cidade. Mas o restaurante é mais de que o sanduíche, e cria um clima agradável, com boas opções no cardápio a preços relativamente acessíveis. Um jantar para duas pessoas, incluindo duas taças de vinho, fica em torno dos U$ 70, nada absurdo para uma ótima refeição. E o hambúrguer, realmente está bem à frente de outros bons experimentados na cidade.

O aclamado hambúrguer, entretanto, tem um dos preços mais altos da cidade. Custa U$ 26, mas impressiona por ser completamente diferente e muito superior a qualquer outro hambúrguer bom encontrado em NY, tendo sérias chaces de ser o melhor do mundo. Ele é preparado com carnes especiais “envelhecidas” que ficam mais curadas naturalmente em refrigeradores e ganham um sabor mais acentuado. É o mesmo tipo de carne usada na churrascaria Peter Luger, e assim como lá, é possível perceber uma textura e um sabor bem diferentes dos que o paladar brasileiro está acostumado. Bem mais intenso e saboroso.

É servido em uma peça mais alta que o normal e muito suculenta, com uma carne que se diferencia dos outros hambúrgueres. Vem acompanhado de cebola caramelizada e salada, além de batatas fritas, e é surpreendente.

Ah, vale lembrar que o Minetta Tavern não abre para o almoço durante a semana, só para jantar desde as 17h30 ou nos brunches de fim-de-semana.

Não acredita? Então olha aí também…

Frank Bruni do NYT sobre o Minetta

NY MAG sobre abertura do Pulino

NY sem saudade de casa

Quando bate uma saudade da comida de casa, os brasileiros também não precisam sofrer pela falta de um feijão com arroz, um pão de queijo, uma feijoada, um estrogonof, um bife à milanesa ou mesmo uma moqueca. As principais comidas da gastronomia cotidiana do Brasil podem ser encontrados em uma dúzia de restaurantes “brasucas” de Nova York.

As churrascarias em sistema de rodízio costumam ser os restaurantes brasileiros que recebem mais atenção dos críticos americanos. Eles se encantam do o sistema de carne à vontade e divulgam esse mergulho em toneladas de carne como uma experiência maravilhosa. A mais tradicional da cidade é a Churrascaria Plataforma, inaugurada em 1996 e que fica em Midtown.

Feijão e arroz para matar saudade de casa

Por muito tempo era na rua 46, em Midtown, que se encontravam os principais lugares da comida e da cultura brasileira em Manhattan. Nos últimos anos, a rua que tem o título de “Little Brazil” tem se descaracterizado, se tornado mais misturada e menos autenticamente brasileira. Ainda há dois ou três restaurantes e bares com temas brasileiros, que podem servir de alternativa para matar a saudade de casa sem gastar muito dinheiro e sem esperar nada de excepcional.

Cozinhas de galinha com tempero bem mais picante que o que se conhece no Brasil

Os restaurantes mais relevantes de comida brasileira atualmente, entretanto, estão espalhados pela cidade e pela região perto dela. Em Newark, cidade de nova Jersey que fica a 20 minutos de trem de Manhattan, há uma das maiores comunidades de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos, que têm vários bares e restaurantes bem autênticos. No Queens, em Astoria, se concentram os brasileiros de Nova York, com lugares menos badalados e mais baratos e tradicionais para a comunidade.

Bife à milanesa com batata frita

E no Brooklyn fica o restaurante brasileiro mais na moda de Nova York. É o Miss Favela, misto de boteco e restaurante que fica na base da ponte de Williamsburg e eu serve comida brasileira tanto para os brasucas quanto para os americanos empolgados com a cultura do Brasil. A dona do lugar é uma carioca casada com um francês, e dá para percerber que o cardápio puxa mais para o lado do Rio de Janeiro.

Pudim de leite de sobremesa (parecendo mais um flan, na verdade, com textura pouco densa)

O Miss Favela costuma lotar nos finais de semana, quando tem grupo de pagode e feijoada. No verão fica um clima de festa, com o povo bebendo e comendo na calçada, um monte de gente dançando. A comida é boa, e brasileira de verdade, com feijão e arroz de acompanhamento para carnes, pão de queijo e coxinha de galinha (com tempero mais apimentado que o normal) de entrada. Os preços das comidas são acessíveis e os pratos até podem ser divididos. O problema são as bebidas, com caipirinhas de U$ 8, que tornam quase impossível para os imigrantes que têm salários mais limitados.

Pequena Itália para turistas

Italianos podem dizer que descobriram Nova York, já que Gioavanni da Verrazzano foi o primeiro europeu a chegar no território habitado pelos índios lenape, ainda em 1524. A viagem, entretanto, não rendeu mais que um rápido reconhecimento, e por mais que os italianos tenham uma forte marca na cultura da cidade no século XXI, foi somente a partir de 1880 que eles começaram a imigrar em massa para os Estados Unidos, especialmente para a Grande Maçã – em 1930, 20% dos nova-iorquinos tinham ascendência italiana, e no censo de 2000, eram cerca de 10%, quase 800 mil pessoas.

Massa com molho de tomate e shrimp ball no Vincent's

A comida italiana logo se espalhou pela cidade, e pode-se dizer que a maior parte dos restaurantes étnicos de Nova York são italianos, além de eles terem influenciado toda a alimentação com base em carnes e massas –  a boa comida italiana está em todos os cantos. Mesmo assim, um pequeno bairro no sul da ilha de Manhattan que recebeu os primeiros grupos de imigrantes no século XIX se consolidou como “pequena Itália”, um rótulo mais para atrair turistas de que para celebrar a cultura italiana.

Massa com molho alfredo e galinha grelhada

Little Italy atualmente é composta basicamente por uma rua central, a Mulberry, com alguns pedaços das transversais. Nela há basicamente lojinhas de suvenires e restaurantes italianos, nenhum grande restaurante italiano, na verdade. Nenhum critico ou guia de gastronomia da cidade indica que se coma em Little Italy. Os lugares se aproveitam apenas de turistas, que caem na clima de bandeiras coloridas, pratos simples e comida relativamente barata. Mas a maior parte serve comida sem graça.

Ambiente interno do Vincent's

Em busca de alguns dos originais da região, o Monstro fez um refeição no Vincent’s, um restaurante de mais de cem anos, teoricamente mantido por um mesmo grupo de italianos desde 1904. Fora da Mulberry, em uma parte de Little Italy cada vez mais tomada pela sempre crescente Chinatown, o Vincent’s baseia sua pequena fama em um molho de tomate encorpado e suave, bem saboroso.

O restaurante em Little Italy

O cardápio de almoço do Vincent’s oferece massas por preços em torno de U$ 10, o que é excelente. As atrações mais comentadas ali são as almôndegas e uma almôndega de camarão, que na verdade é uma bola de massa frita com recheio de pequenos camarões. As massas do restaurante são boas, servidas al dente e com ótimo sabor, e o molho de tomate é bom. O Monstro experimentou ainda uma massa com molho Alfredo, que estava encorpado e com bom sabor de queijo. Para uma região tão “armadilha de turista”, o Vincent’s não chega a fazer feio, mas é fácil comer pratos italianos até melhores e pelo mesmo preço em qualquer outra área menos turística da cidade.

Serviço:
Vincent’s Restaurant
119 Mott St
New York, NY 10013
(212) 226-8133
http://www.originalvincents.com

O ápice do carnivorismo

Por um momento, parece que tudo o que se conhecia estava errado. Mesmo depois de anos experimentando churrascos com as carnes mais variadas, é impressionante a surpresa que se pode encontrar ao experimentar o Porterhouse servido no Peter Luger, no Brooklyn, de tão diferentes que são o sabor e a textura encontrados. Uma maciez sem precedentes e um gosto forte, gordo, na carne que costuma ser indicada por unanimidade como a melhor encontrada em Nova York.

A carne para duas pessoas servida no Peter Luger por U$ 85

A churrascaria fica na base da ponte de Williamsburg, logo do outro lado do East River e pertinho de Manhattan. Ela foi inaugurada no século XIX, em 1887, já para satisfazer o apetite carnívoro que marca a história da alimentação nos Estados Unidos (os americanos são os que mais comem carne no mundo). E há décadas que é consagrada como a carne preferida dos nova-iorquinos, liderando avaliações em todos os guias gastronômicos e ganhando até mesmo uma estrela do Guia Michelin.

Bem passada por fora, quase crua por dentro, ela é uma das melhores carnes que se pode comer

O churrasco preparado ali é diferente do tipo mais tradicional dos Estados Unidos, propagado pelos Estados do Sul e feitos de forma lenta e na fumaça. Aqui a carne lembra mais a forma como é preparada no Brasil, sobre o calor de brasa, mas não em espeto, apenas em uma grelha e sob um calor bem intenso, de forma que a carne fica meio chamuscada por fora e quase crua por dentro.

A carne é servida em um prato quente e com um caldo da gordura que só aumenta o sabor dela

Há poucas opções no cardápio, e algumas carnes individuais podem ser encontradas desde menos de U$ 20. Além disso, há meia dúzia de opções de acompanhamentos  e entradas. É preciso já ter ouvido alguma recomendação, ou lido em resenhas anteriores para perder o preconceito e encarar a que é considerada a melhor delas, mas que tem um nome simples que pode afastar as pessoas: fatia de bacon.

A deliciosa fatia de bacon servida como entrada

Diferentemente daquelas fatias fininhas de bacon industrializado, a entrada no PL é uma grossa fatia de carne de porco em um corte semelhante ao do bacon, mas sem ser curado e defumado. Essa fatia cheia de gordura é rapidamente grelhada e fica uma delícia, com sabor intenso de carne de porco de qualidade. Cada fatia custa U$ 3 e é uma ótima forma de começar a refeição, junto com pequenos pãezinhos oferecidos logo na chegada.

Cesta de pães servida no começo da refeição

O carro chefe da casa, entretanto, que é o que faz as pessoas irem até lá e que surpreende mesmo o melhor conhecedor de churrasco brasileiro, é o Porterhouse, chamado no cardápio simplesmente de Steak. O Porterhouse é o corte que no Brasil é conhecido como T-bone, aquele pedaço grande de carne com um osso no meio e em que de um lado há filé e do outro contra-filé. O pedaço para duas pessoas (duas pessoas muito famintas ou até três normais) custa absurdos U$ 85, mas poderia custar o dobro que continuaria valendo a pena.

O molho de churrasco da casa, bom, mas dispensável

Ela é sensacional. A carne é cortada especialmente para o Peter Luger e segue um forte controle de qualidade. Ela é envelhecida antes de ser preparada, o que dizem que faz diferença no sabor. O impressionante é que a diferença entre filé e contra-filé não é de maciez, como costuma acontecer no Brasil, mas de sabor mesmo, sendo difícil saber qual pedaço é melhor.

Cebola frita servida como acompanhamento da carne

A carne é servida no ponto que o cliente pedir, claro, mas eles costumam recomendar o médium-rare, que é o ao ponto puxando para mal passada. Ela é feita na brasa, cortada e coberta com um caldo de carne e gordura que deixam o sabor ainda mais forte – por uns momentos é tanto sabor e tanta gordura que há até lembranças distantes de foie gras.

O osso em forma de "T", tudo o que sobra...

Ela pode ser servida com acompanhamentos de batatas e legumes, mas também pode ser comida só ela com pedaços de pão do couvert. O preço não é baixo, é verdade, mas é comida demais para duas pessoas e o sabor faz valer um pequeno sacrifício.

O Peter Luger, logo na decida da ponte de Williamsburg, no Brooklyn

O Peter Luger tem um amplo salão que costuma lotar todos os dias. Para ir à noite ao restaurante é recomendado fazer reserva com alguma antecedência, mas para o almoço durante a semana é tranqüilo chegar lá sem reservar e é fácil de conseguir uma mesa. Ele não aceita cartões de crédito, mas apenas débito, dinheiro e travellers cheques.

Muita gente reclama em fóruns de discussão que o restaurante é um tanto “metido”, e que não costuma aceitar reclamação. Um dos casos mais hilários foi de um comentarista do Yelp, fórum da internet, que reclamou com o garçon que sua carne não estava boa e ouviu o atendente responder que ele estava errado, e que “temos a melhor carne de Nova York”. O Monstro acredita no que foi contado, mas não viveu nada parecido. O atendimento demorou um pouco para começar a funcionar, mas depois ganhou ritmo e fluiu bem, e a carne de fato foi uma das melhores que ele já experimentou na vida.

Serviço:
Peter Luger
178 Broadway
Brooklyn, NY 11211
718-387-7400

Não acredita? Então olha aí também…

Yelp

NYMag

Opções mais baratas do cardápio do PL