Um guia de NY

O texto abaixo foi escrito em 2010 como um manifesto por um guia gastronômico em busca da alma da cidade. Ele serviu de base para a apresentação do livro “Comendo a Grande Maçã”, e continua explicando bem o objetivo do blog e do guia.

Comer para contar- um manifesto

Não faltam guias de turismo de Nova York. Pode entrar em qualquer livraria e buscar na seção desse tipo de obra. Há dezenas deles, em inglês e em português; alguns voltados a brasileiros e outros que trazem simples traduções de guias internacionais; uns planejam passeios sem considerar o custo e outros apresentam a exploração da cidade de forma econômica; uns são superficiais e outros detalhistas. Há de tudo e as opções são muitas. Todos falam para o turista ir ao Empire State e à Estátua da Liberdade, trazem listas de museus, dão dicas da melhor época para viajar, as melhores regiões para fazer compras e, claro, listam restaurantes famosos que o viajante deve visitar.

Em cada um desses livros, entretanto, falta alma.

Enquanto me preparava para encarar uma temporada de seis meses vivendo em Nova York para desenvolver uma pesquisa sobre política, economia, cultura e a imagem internacional do Brasil, era difícil encontrar nesses guias o espírito verdadeiro da cidade, algo que ajudasse a conhecer realmente Nova York, e não apenas ver seu contorno fugaz. Faltava entender melhor a história dessa cidade, a cabeça do povo de mil nacionalidades que vive nela e, como guloso e apaixonado por comida, faltava algo que falasse sobre a cultura gastronômica dela, que dissesse o que Nova York come.

Entender o que uma cidade come é mais de que saber quais SÃO os restaurantes mais famosos, quais os melhores lugares para fazer uma refeição. É mais de que dizer que há barracas de cachorro-quente na rua, hamburguerias em todas as esquinas, redes de fast food, ou repetir listas dos mesmos locais que todos os guias trazem, como o Balthazar e o Oyster Bar.

Para entender o que Nova York come é preciso mergulhar no estilo de vida dessas pessoas que fazem a maior parte das suas refeições na rua, mas que começam a dar valor a produtos naturais e orgânicos; pessoas que tomam café da manhã em uma padaria francesa, almoçam em um carrinho de comida árabe e jantam autêntica culinária ucraniana, tudo pertinho de casa, sem precisar se deslocar ao longo da ilha de Manhattan ou sair do seu bairro no Brooklyn, no Queens, no Bronx ou em Staten Island.

Pensando que a alimentação, para os turistas, é uma atração secundária ou mero abastecimento entre um e outro passeio, os guias costumam economizar papel e espaço quando tratam de comida. Eles apresentam tudo de forma simplificada, sem graça e resumindo a “deveres”, lugares que o visitante precisa conhecer, mesmo que isso acabe atrapalhando uma viagem mais prazerosa. Ah, o dever. Engraçado como os guias de turismo conseguem transformar o prazer da viagem em obrigação, listando coisas que “não podem deixar de ser vistas”. Isso acaba criando uma cidade artificial conhecida pelos viajantes, mas não vivida de fato pela cidade e as pessoas que moram nela.

Em nenhum dos guias de turismo de Nova York havia relatos verdadeiros sobre a comida que poderia ser encontrada na cidade. A maior parte deles se esconde por trás do anonimato dos autores para imprimir relatos secos e sem experiências reais – trazem informações perdidas sobre a qualidade, os preços, as premiações e a fama dos restaurantes. Faltavam textos que ajudassem a entender os gostos e sabores, relatos que deixassem claro que quem estava escrevendo ali de fato experimentou aquela comida.

Claro que na virada da primeira década do século XXI a internet substituiu os guias de turismo tradicionais em boa parte da sua função, e que há dezenas de blogs com relatos de viajantes gulosos e perspicazes, que pesquisaram profundamente e conseguiram fazer um curso intensivo in loco de comida nova-iorquina. Essas sugestões de blogs são boas, é verdade, mas sofrem por falta de tempo e aprofundamento, pois quem fica uma semana ou um mês em uma cidade não consegue experimentar tanto, já que o número de refeições é fisiologicamente limitado.

Já que falamos em internet, é bem verdade que estão na rede as principais publicações sobre cultura gastronômica e restaurantes de Nova York. O caderno de comida do “New York Times” está disponível lá, a “New Yorker” e a “New York” também, além da “Time Out”, é claro, com a programação completa de toda a atividade cultural nova-iorquina atualizada semanalmente. E já há até guias voltados apenas para a comida na cidade e preparados especialmente para a rede, como o Yelp e a versão digital do aclamado guia Zagat. Isso considerando que quem busca as informações leia inglês e tenha tempo e paciência para pesquisar em publicações voltadas a nova-iorquinos, onde não é necessário explicar a dinâmica da cidade.

Mesmo com a internet e os bons blogs, continuava então faltando uma fonte de informações organizadas de forma simples a respeito da cultura alimentar de Nova York e dos Estados Unidos. Um guia que trouxesse experiências reais de quem experimentou as comidas, pagou seu preço, tentou fugir do deslumbramento, pesquisou o que pode a respeito da história e da cultura da cidade e dos seus restaurantes e, acima de tudo, comeu para poder contar.

É isso que este projeto busca fazer. Comer a Grande Maçã, apelido comum de Nova York, é experimentar o máximo de sabores diferentes que essa cidade oferece para poder organizar isso e contar para futuros viajantes. É pesquisar e planejar este guia com a meta de conhecer as culturas que formam a cidade, e apresentar ela com essa experiência.

O Monstro, este personagem de que o blog trata, é um alter ego guloso. A personalidade que, a cada restaurante, quer pedir um pouco de tudo o que há no cardápio e que não quer parar de comer enquanto o estômago não briga com o pulmão pelo espaço. É este personagem que está mergulhado na cultura gastronômica de NYC para tentar apresentá-la de forma interessante, fugir do deslumbramento para entender e explicar o que esta cidade come. O projeto é ambicioso e envolve investimento de tempo para pesquisa, de dinheiro para pagar as contas, e de estrutura física, já que tanta comida uma hora acaba aumentando a circunferência da cintura – tudo isso devidamente planejado, permitido e até esperado.

Vai ser impossível conhecer e falar de tudo. Já foi dito aqui que há mais de 18 mil estabelecimentos voltados à venda de comida na cidade, e que seriam precisos 17 anos para poder conhecer todos eles (se uma pessoa fosse fazer três refeições por dia em restaurantes diferentes). Mas a meta é descobrir a variedade, desmistificar os mitos criados pelos guias sem alma e apresentar um pouco da história dessa cultura. Como diz Molly O’Neil, editora da antologia de escritos americanos sobre comida, é na alimentação que se encontram muitas das chaves para entender a cultura de um povo.

E, se viajar é encontrar novas culturas, é preciso experimentar essas comidas para descobrir esse mundo diferente. O Monstro faz isso, e conta tudo, tentando usar gostos e sensações para descobrir e explicar o que nos faz humanos, o que aproxima e o que diferencia nossas culturas. “Cada refeição, afinal, é um novo começo”.

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4 Respostas para “Um guia de NY

  1. Muito boa ideia, Buarque! Já estou me aporrinhando com esses guias que ficam me enchendo de deveres. Vou saborear devagarzim o seu blog…

  2. Me parece o Daisy May’s… Um tio de lugar que inexiste no Brasil.

  3. Irei em maio para lá e seu livro me ajudou a montar os roteiros, levantei os pontos turísticos indispensáveis (sob meu ponto de vista) e marquei praticamente todos os restaurantes que vc citou. Em cima de tudo isso dividir os 9 dias em que estarei na Grande Maçã para criar uma viagem inesquecível. Obrigado por todas as informações.

    • Carlos,
      obrigado pela mensagem.
      Espero que dê tudo certo na sua viagem e que as dicas ajudem de verdade.
      Se precisar tirar mais alguma dúvida, é só falar que tentarei ajudar no que puder.
      um abraço
      daniel

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