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A comida inglesa é a pior do mundo?

O subtítulo do livro “Comendo Londres” faz referência ao fato de que a gastronomia britânica tem fama de ser uma das piores do planeta.

Ao começar a conversar com as pessoas sobre o lançamento do guia, entretanto, muita gente no Brasil parecia desconhecer este estereótipo com a cardápio inglês.

Esta má-fama existe, é antiga e persistente.

Em 2009, quando o guia de turismo Lonely Planet resolveu fazer uma edição especial sobre comidas em viagens, todos os colaboradores do guia em todos os países foram convidados a votar nos melhores e piores do mundo. O Reino Unido ganhou com facilidade o título de pior comida. Nova York, Cingapura, Roma e Paris lideraram o topo do ranking, nesta ordem.

A própria concepção de “gastronomia” é muitas vezes colocada em oposição ao Reino Unido, e é comum ouvir piadas em que as pessoas perguntam de forma irônica: “Existe gastronomia na Inglaterra?”

Nesse contexto, uma frase do ex-presidente francês, Jacques Chirac, quase gerou um problema diplomático entre a França e a Inglaterra.

Sem saber que estava sendo ouvido por jornalistas enquanto conversava com o líder russo Vladimir Putin e o então chanceler alemão Gerhard Schroeder, em 2005, ele disse: “Você não pode confiar em um povo que cozinha tão mal assim. Depois da Finlândia, a Grã Bretanha é o país que tem a pior comida”.

“Comendo Londres” explica a origem dessa má-fama, fala sobre como a gastronomia inglesa evoluiu historicamente e chegou de fato a passar por períodos muito problemáticos, mas seu objetivo é mostrar que a má-fama é indevida.

É verdade que muitos pratos típicos dos ingleses são estranhos para o paladar brasileiro, mas mesmo eles são interessantes, e existe muita comida ótima ali.

Mesmo que exista um passado de comidas com qualidade questionável, muito mudou na Inglaterra toda e falar que come-se mal no país é um enorme exagero por cima de um estereótipo.

A ideia do livro é quebrar, mesmo que um pouco, a imagem estereotipada e superficial de que come-se mal na Inglaterra.

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Vem aí: Comendo Londres – Um guia para amar a pior gastronomia do mundo

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Há décadas a comida inglesa é reconhecida internacionalmente como a pior do mundo. A própria concepção de “gastronomia” é muitas vezes colocada em oposição ao Reino Unido, e é comum ouvir piadas em que as pessoas perguntam de forma irônica: “Existe gastronomia na Inglaterra?”.

“Comendo Londres” vai contra esse estereótipo para mostrar que é possível, sim, comer bem e se encantar com a comida inglesa.

Assim como aconteceu com o “Comendo a Grande Maçã”, sobre a gastronomia de Nova York, “Comendo Londres” vai guiar o leitor pela cultura gastronômica da capital inglesa, explicando o que se come, por que se come e indicando alguns endereços para comer bem. Mais de que uma lista de locais “imperdíveis” e “obrigatórios” para o turista, este livro pretende ensinar qualquer viajante a navegar pela cultura gastronômica inglesa e saber escolher por ele mesmo.

“Comendo Londres” está no forno, quase pronto…

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Jogo de caça e caçador

Faisão exposto em açougue de Greenwich

Faisão exposto em açougue de Greenwich

Um susto marcou um almoço no agradável pub Chelsea Ram, em uma rica região de Londres. Ao morder o pedaço da deliciosa carne preparada na brasa, o dente bateu em algo que parecia uma pequena pedra, bem dura, por pouco não machucou. Ao separar o pequeno pedaço, uma pequena esfera de metal se revelou no lugar do que parecia uma pedra. Era chumbo, parte da munição usada para abater o pombo, animal cuja carne havia virado refeição.

Bala de chumbo achada em carne de pombo

Bala de chumbo achada em carne de pombo

Apesar do susto, o caso não foi lá tão isolado. O cardápio do ótimo restaurante St. John, por exemplo, tem um alerta logo na sua página inicial, avisando que não se pode garantir que algumas carnes estejam completamente livre de pedaços de chumbo. É o preço que se paga para entrar em um dos costumes mais interessantes da alimentação inglesa, o de comer carnes de caça.

Carnes de animais selvagens abatidos de forma legal e regulamentada fazem parte do cardápio tradicional britânico. É um costume antigo, moralmente aceitável, que continua sendo valorizado, e que oferece uma experiência gastronômica muito distante da realidade brasileira. São carnes bem diferentes, com texturas e sabores que fazem bifes de vaca e porco parecerem repetitivos e sem graça.

Jogo apetitoso

“Game”, palavra facilmente traduzida para o português como “jogo”, é o termo usado no sentido culinário na Inglaterra para se referir a animais selvagens, aves e peixes, caçados – seja por sua carne para a alimentação, seja por esporte.

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Filé de cervo no pub Jugged Hare

Falar sobre caça de animais é entrar em um forte debate sobre ética e moral. Para muitas pessoas, o abate de bichos selvagens é absurdo, e os caçadores deveriam ser punidos. Pensar o ataque a animais como lazer realmente é algo bizarro e altamente condenável, é verdade. Sob o ponto de vista da alimentação, entretanto, a caça de animais pode ser justificada como uma das formas mais naturais, sustentáveis e até menos crueis de se obter carnes para consumo.

O escritor americano Michael Pollan fala um pouco sobre isso em “O Dilema do Onívoro”, em que conta como preparou uma refeição inteira sem depender de ingredientes comprados ou industrializados (usando vegetais plantados em casa, cogumelos colhidos e carne de porco selvagem caçado). Ao considerarmos o estado atual da produção industrial de carnes, em que os animais são criados de forma cruel e abatidos com violência, é possível pensar que a caça de um animal em idade adulta, após viver livre, e cuja carne vai ser usada totalmente na alimentação, sem desperdício é uma forma mais “humanizada” de obter carnes. Não é lazer, não é esporte, é uma fonte diferente, mais natural, de carnes para a alimentação. Como onívoro, é natural aceitar que esta carne faça árte do cardápio sem rejeitar completamente a ideia da caça.

Peito de pombo com couscous

Peito de pombo com couscous

Há uma forte regulamentação por trás da caça na Inglaterra, justamente para evitar que ela se torne banal e que ponha em risco as espécies que servem à alimentação. Isso faz com que a oferta de carnes de caça seja sazonal, aparecendo apenas em determinadas épocas do ano. Além disso, há uma restrição em relação ao local em que ela pode acontecer. Em muitos parques, até mesmo em Londres, os animais são protegidos e não podem ser abatidos – mas podem ser visitados e vistos em um ambiente natural.

Aqueles animais que ficam soltos nos grandes parques de Londres (e no resto do país) e que os turistas adoram ver e fotografar são protegidos e não podem ser caçados. No início de 2014, um imigrante turco foi preso em Hildenborough, ao sul de Londres, depois de matar um cisne e levar para casa para comê-lo. O homem de 46 anos foi fotografato atacando o animal e colocando sua carcaça em uma mochila. Ele foi detido pela polícia e foi obrigado a pagar multas no valor de 225 libras, mas foi liberado em seguida. Ele alegou não saber que era proibido caçar os cisnes, e que queria experimentar sua carne, que é “gostosa”.

O problema é que além de ser proibido caçar sem seguir as regras, todos os cisnes não marcados (aqueles que vivem soltos, e não em parques controlados) pertencem à Rainha, e a caça deles é ilegal. Matar um cisne pode dar penas de até seis meses de prisão e até 20 mil libras em multas.

O conceito do termo “game” mudou ao longo da história, já que alguns países passaram a criar animais em ambientes selvagens para poder “domesticar a caça”. Dessa forma, o termo “game” passou a ser aceito apenas para a caça de animais realmente selvagens, soltos e livres. A questão é mais ligada à gastronomia de que à moral, já que acredita-se que a carne de animais realmente selvagens tem uma maior qualidade, com sabor mais natural, de que a de animais domesticados.

Carnes de caça têm um sabor diferente daquele encontrado em carnes de animais criados para abate – tanto por serem animais mais ativos quanto por conta da idade do animal, da alimentação dele, que é feita livremente, e não com ração, e da forma como a carne é tratada após o abate do animal. Além de ser uma carne mais magra, a gordura que existe normalmente é eliminada por não ter sabor muito agradável.

Na África, o termo é usado para qualquer tipo de caça, mas no Reino Unido ele é aplicado de acordo com a lei que regulamenta a caça no país – apenas alguns animais podem ser caçados e apenas em determinadas épocas do ano – Veja a seguir um glossário com a lista dos principais animais caçados na Inglaterra.

Carne (quase) estragada

Em um jantar no restaurante St. John, um dos melhores lugares para experimentar carnes exóticas em Londres, parte da coxa de uma ave servida assada tinha um cheiro estranho, acentuado, parecendo estar estragada. O sabor dos pedaços de peito comidos até então estava delicioso, mas não tinha jeito de não pensar que havia algo podre no restante da carne. Esse estranhamento é parte da falta de costume com um hábito que faz parte do costume de comer animais de caça, especialmente aves, a faisandage – manipulação que na verdade serve para melhorar o gosto das carnes, transformando-as em iguarias gastronômicas.

“Faisander” é o ato de conservar um animal abatido para amaciar a carne e intensificar o sabor O verbo em francês significa literalmente “pendurar a carne”, deixando-a maturar naturalmente para que o começo do processo de decomposição aprimore seu sabor e deixe a carne mais macia. O termo também existe em português, segundo o dicionário Aulete. A palavra “faisandé” (pronuncia-se fesandê) significa carne de caça que se deixa propositalmente chegar ao início da decomposição para ser degustada.

A prática é muito antiga, e envolve técnicas especiais para cada tipo de animal. Se cortados de forma prematura, carnes de cervos, por exemplo, podem ter um sabor muito similar à carne de vaca, vermelha e magra. Tratados da forma mais tradicional, maturados, os cortes adquirem um sabor de caça mais intenso, bem diferente da carne de animais domésticados.

Segundo Harold McGee, um dos maiores pesquisadores sobre a ciência por trás da comida e autor de “On Food and Cooking”, a técnica surgiu no passado, e deixava-se a carne chegar bem perto de apodrecer antes que ela fosse consumida, o que deixava o sabor mais intenso e mais ao paladar da época. Hoje em dia o paladar não lida mais tão bem com o gosto da carne de caça excessivamente maturada, ele explica, o que faz com que a maturação ocorra de forma controlada e por menos tempo.

“Assim como queijo e vinho, carnes se eneficiam de um certo período de envelhecimento, ou mudança química lenta, durante a qual elas se tornam progressivamente mais saborosas. Carnes também ficam mais macias. No século XIX, carne de boi e de carneiro ficavam em temperatura ambiente por dias ou até semanas, até que sua parte externa estivesse literalmente apodrecida”, diz.

A técnica é sempre liada a Brillat-Savarin, autor de “A Fisiologia do Gosto”. Antonin Carême, chef que criou a alta gastronomia, dizia que a maturação deveria ir o mais longe possível.

McGee menciona todos os nomes científicos das enzimas envolvidas e explica que quando um animal é abatido, suas células param de funcionar e as enzimas dos músculos passam a atacar as células da carne, quebrando grandes moléculas sem gosto e transformando-as em fragmentos cheios de sabor, quebrando proteínas e transformando-as em aminoácidos e quebrando glicogenio em glucose. Este processo contribui para dar um sabor melhor às carnes e deixá-las mais macias e suculentas.

No caso da caça, o processo é especialmente necessário porque os animais caçados costumam ser mais magros, mais velhos e mais ativos de que os criados em cativeiro, o que deixaria sua carne quase incomestível de tão dura..

O costume soa estranho, mas é algo muito parecido com o que ocorre com carne de gado, que é maturada de forma controlada, a baixas temperaturas e a seco, para que a carne desenvolva um sabor e maciez especiais, sem permitir que a carne apodreça.

Uma casa portuguesa, mais ou menos

Meio galeto do Nando's

Meio galeto do Nando’s

Uma das redes de restaurantes mais populares de Londres é um lugar de inspiração portuguesa, com origem sul-africana, decoração de Moçambique, onde toca muita música brasileira e na qual, em vez de bacalhau, o prato principal é galeto na brasa com molho picante (chamado peri-peri).

Asinhas de frango grelhadas com molho picante

Asinhas de frango grelhadas com molho picante

Bem diferente dos restaurantes portugueses do Brasil, o Nando’s é praticamente um KFC mais saudável. Assim como a rede americana de fast food, o cardápio é dominado por pedaços de frango em molho picante. A diferença é que o português é com o frango grelhado, e não frito como o americano. Todo formato da rede, entretanto, lembra os casual diners americanos, estabelecimentos um passo à frente dos fast foods, mas ainda sem alma e distante de um restaurante de qualidade.

Leia mais sobre as redes de restaurantes de Londres

Veja mais fotos do Nando’s no Tumblr

Criada em 1987, a rede Nando’s tem restaurantes em mais de 20 países. Somente na região de Londres, a rede tem mais de cem endereços, e é um dos restaurantes mais populares entre jovens que buscam comida barata – o preferido de estudantes. Uma refeição completa no Nando’s pode sair por menos de 10 libras – um preço que faz o restaurante disputar espaço com pubs e redes de fast food.

A comida é OK. Nada excepcional. O Monstro experimentou dois pratos bons e uma decepção. O fígado de frango na brasa estava muito bem feito, suave, e as asinhas picantes tinham carne macia e soltando do osso. O meio galeto grelhado, entretanto, foi servido ressecado e sem muito sabor.

Assim como os pubs, o Nando’s não tem serviço na mesa, e é preciso fazer os pedidos no caixa – mas a comida é servida na mesa. A vantagem é não ter que receber a conta depois de comer.

Para brasileiros saudosistas, o Nando’s oferece cerveja Brahma em long neck por 3,6 libras (cerca de R$ 14).

Feijão maravilha

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Dez entre dez brasileiros preferem feijão, e é normal achar que além de preferência o feijão é exclusividade do cardápio nacional brasileiro. Na Inglaterra, entretanto, também existe uma “mania nacional” pelo feijão, mesmo que seja numa versão diferente da que os brasileiros estão acostumados a comer, servida em refeições diferentes e com acompanhamentos diferentes.

beans8O feijão inglês costuma ser retirado já pronto diretamente de latas. Ele é mais claro que as versões brasileiras, com sabor mais suave, e vem mergulhado em um molho vermelho e adocicado preparado com tomates. Os ingleses costumam se referir a seu feijão enlatado como “baked beans”. A tradução literal seria de que os feijões foram assados, mas na verdade eles foram cozidos no molho adocidado de tomates que os acompanha.

Em vez de almoço, a versão britânica é parte do café da manhã “completão”, servida ao lado de linguiças, bacon, ovo, tomate, torradas. Torradas, aliás, que costumam ser acompanhamento exclusivo do feijão em um outro prato bem inglês, o beans on toast, também comido no café da manhã. O feijão aparece ainda como recheio de batatas assadas, ou como acompanhamento de outros pratos.

O feijão que se come na Inglaterra é de uma variedade pouco comum no Brasil. Chamada de “navy” ou “haricot” em inglês, ele costuma ser traduzido para o português como feijão branco miúdo, e lembra um pouco o feijão fradinho. É uma variedade clara e com sabor pouco intenso.

Feijão é parte do café da manhã "completão" dos ingleses

Feijão é parte do café da manhã “completão” dos ingleses

Segundo Colin Spencer, pesquisador da história da alimentação no Reino Unido, feijões sempre fizeram parte do cardápio inglês. Desde a pré-história, por conta da facilidade de armazenamento dos grãos, era um alimento padrão do inverno britânico. A versão popular nos dias de hoje, entretanto, é o feijão adocicado enlatado, é resultado de um processo industrial iniciado no século XIX.

Feijão inglês servidos de forma abrasileirada

Feijão inglês servidos de forma abrasileirada

Apesar de ter uma longa história no Reino Unido, o feijão enlatado se consolidou como uma das comidas mais baratas, abraçadas por classes baixas e estudantes como um prato do cotidiano. Em supermercados é comum encontrar diferentes variedades e marcas, mas o preço não costuma passar muito dos 50p (equivalente a R$ 2).

Apesar do sabor adocicado e de ser comumente servido com torradas, o feijão inglês quebra um galho mesmo para o paladar brasileiro. Ao longo de um ano, o Monstro preparou o feijão enlatado como acompanhamento para frango assado, carnes, linguiças, e arroz, da forma como o feijão seria servido no Brasil, e o sabor combinou bem. A melhor surpresa, entretanto, foi comer o feijão doce com haggis, a buchada tradicional escocesa – combinação perfeita.

Feijão brasileiro em supermercado de Londres

Feijão brasileiro em supermercado de Londres

Brasileiros que se mudam para a Inglaterra e se sentem dependentes do feijão brasileiro não precisam se preocupar. Supermercados ingleses costumam ter variedades de feijão seco como vendido no Brasil, e é possível até achar feijão carioquinha brasileiro em alguns endereços do Tesco, bem como feijão preto no Whole Foods.

De origem de luxo a comida barata
Spencer conta que a primeira variedade de feijão enlatado surgiu nos Estados Unidos em 1880, já numa receita que incluía molho de tomate similar à que se tornaria popular no Reino Unido. Andrew Webb explica, em seu livro “Food Britannia”, que o feijão em lata chegou ao Reino Unido em 1886 como um artigo importado de luxo. O feijão da empresa americana (hoje brasileira) Heinz apareceu em Londres pela primeira vez nas prateleiras da loja de luxo Fortnum & Mason, e era vendido pelo equivalente a mais de três vezes seu preço atual.

Apesar de a Heinz ter uma marca internacional muito associada a catchup, no Reino Unido ela é a principal marca de feijão. Um representante da Heinz se mudou para Londres para expandir o mercado de feijão no país na virada do século XX, e em 1905 a empresa começou a produzir o feijão no sul de Londres, adaptando o produto ao gosto local. A empresa passou a apelar às donas de casa inglesas, rompendo com sua imagem de “americana” e fazendo propaganda das características nutritivas do feijão.

Feijão com torrada

Feijão com torrada

O sucesso do feijão na gastronomia inglesa, entretanto, só ocorreu depois que a Heinz fez uma campanha forte e conseguiu associar o produto ao baixo preço e à alta acessibilidade para camadas mais pobres da sociedade. Até hoje, o feijão é muito associado à limitação financeira, sendo preferido de trabalhadores mais pobres e estudantes com orçamento limitado.

Webb conta que em 1930, durante a depressão econômica na Europa, a Heinz fazia uma propaganda parecida com a do Danoninho, alegando que um quilo de feijão tinha o mesmo valor nutritivo de um quilo de carne – “vale por um bifinho”. Até os dias de hoje, uma campanha publicitária da marca mostra duas crianças comendo torradas com feijão como sendo o prato perfeito para a nutrição delas.

Àquela altura, o feijão já havia sido incorporado pelo paladar britânico, e por isso foi classificado pelo governo como uma comida “essencial” durante a Segunda Guerra Mundial.

Estimativas indicam que 2,3 milhões de britânicos comem feijão diariamente. A Heinz domina 70% do mercado de feijões na Inglaterra, e a em média um milhão de latas da marca são consumidas por dia. Segundo Webb, os britânicos comem mais feijão enlatado per capita de que qualquer outro povo do mundo. Em quantidade absoluta, entretanto, e sem contar a variedade enlatada, os brasileiros ainda consomem quase cem vezes mais feijão de que os ingleses.

Por conta da facilidade para o consumo (o feijão enlatado vem temperado e pronto para consumo, precisando apenas ser aquecido -se tanto- para ser comido), o feijão enlatado “é a preferência britânica como comfort food. Os franceses podem ter o cassoulet, os espanhóis podem ter a fabada, mas os britânicos têm os feijões, de preferência em uma torrada”, diz Webb.

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Feijão servido com haggis

Nos anos recentes, um apego à tradição levou chefs a reimaginarem o feijão adocicado tradicional do Reino Unido. Alguns incorporaram receitas próprias ao menu, mas no fundo o feijão enlatado da Heinz continua sendo o preferido dos ingleses, e é o que a maioria dos pubs e restaurantes usa para montar o full english breakfast.

Apesar da popularidade da Heinz, em testes cegos a empresa costuma ir mal. Segundo o “Guardian”, o feijão da marca ficou em último lugar em uma degustação desse tipo, que foi vencida por uma marca genérica do supermercado Tesco.

Assista abaixo a uma peça de publicidade da Heinz mostrando o feijão como alimento nutritivo para crianças

Os rosbifes

 "O the Roast Beef of Old England (‘The Gate of Calais’)", de William Hogarth

“O the Roast Beef of Old England (‘The Gate of Calais’)”, de William Hogarth

Se você é aquilo que você come, os franceses estão certos no apelido que deram aos ingleses no século XVIII, e que continua sendo usado de forma irônica até hoje: “les rosbifs”. A carne assada é tão importante para a dieta britânica que ela permeia algumas das características mais importantes do país, e se tornou um símbolo da Grã Bretanha em outras partes do mundo.

Leia também: Sunday Roast é apontado como o prato mais afetivo dos britânicos

“Rosbif”, é uma forma afrancesada de falar rosbife, que nada mais é de que uma versão aportuguesada de “roast beef”, carne assada. No Brasil existem versões servidas frias em sanduíches e em supermercados, que mais lembram embutidos sem muito sabor, e há quem prepare rosbifes em casa. Na versão inglesa, entretanto, é um pedaço grande de carne que acaba de sair do forno (depois de ser preparada em um espeto giratório, de preferência), e que é servida caramelizada por fora e mal passada e bem vermelha por dentro – sempre aos domingos.

Chamar os ingleses de “rosbifs se tornou uma marca dos ingleses na França no século XVIII justamente por ser uma forma de cozinhar muito popular. O estilo acabou sendo adaptado para o preparo de várias outras carnes”, explicou à rede BBC o linguista Richard Coates. Com o tempo, o termo se espalhou pela Europa e passou a ser usado também na Espanha e na Itália. E mesmo ingleses já se referiram a eles mesmos dessa forma, sem ser ofensivos.

A importância da carne para os ingleses está representada também no personagem do Yeoman of the Guard, o corpo de guarda-costas da monarquia britânica, que desde o século XV é popularmente conhecido como Beefeaters – comedores de carne. É daí que vem o nome de uma famosa marca de gin.

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Jane Grigson, principal autora de livros de gastronomia e pesquisadora de história da alimentação britânica escreveu que estrangeiros sempre admiraram a variedade, a qualidade e o baixo preço da carne inglesa. O rosbife se tornou um símbolo da riqueza e do poder da Grã Bretanha no século XVIII, e desde então havia muitos relatos sobre o fato de que se comia muita carne e de que ela estava disponível mesmo para classes econômicas mais baixas.

Antes mesmo do século XVIII, entretanto, o hábito britânico de comer carne assada já era tema de observadores internacionais. “É pratica comum, mesmo entre as pessoas mais ricas, comer um enorme pedaço de carne assada aos domingos. Eles comem essa carne até que não consigam mais engolir, e comem o restante frio no outros dias da semana”. A descrição é de um francês, Henri Misson, que visitou Londres em 1698 e criou um dos registros mais antigos da tradição do Sunday Roast.

Por ser o prato-símbolo da cultura britânica, o rosbife, a carne assada, foram exportados para vários lugares do mundo durante o Império Britânico. Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia e Austrália têm versões locais da carne assada tradicional da Inglaterra.

A reputação dos ingleses como comedores de carne se consolidou durante a era Elizabetana, no final do século XVI. Segundo historiadores, o médico Thomas Moffet escreveu na época recomendando que carne fosse produzida e consumida em excesso para diferenciar a Inglaterra do resto de Europa. Em 1817, William Kitchiner – autor do respeitado livro “Apicius Redivivus” (o oráculo do cozinheiro)- recomendava que as pessoas deveriam comer pelo menos 3 quilos de carne por semana para ter boa saúde.

A importância do rosbife para a cultura inglesa foi eternizada pelo escritor Henry Fielding, que no século XVIII escreveu uma balada patriotica chamada “The Roast Beef of Old England” (O rosbife da velha Inglaterra). A canção era parte da peça “The Grub Street Opera”, apresentada pela primeira vez em 1731.

A melodia da canção de Fielding para o rosbife se tornou uma marcha militar usada pela marinha britânica. A letra da canção trata da antiga tradição britânica e da mistura com influências francesas, que defendem a comida cozida em um ragu.

A primeira parte da canção diz algo como:

“Quando o poderoso rosbife era a comida dos ingleses,
ele enobrecia nossos cérebros e enriquecia nosso sangue.
Nossos soldados eram corajosos e nossa corte era boa
Oh! o rosbife da velha Inglaterra,
e o velho rosbife inglês”

A canção de Fielding também inspirou as artes. E em 1748 se tornou um quadro hoje célebre de William Hogarth chamado “O the Roast Beef of Old England (‘The Gate of Calais’)”.

O quadro está exposto atualmente na Tate Britain, um dos principais museus de arte britânica em Londres. Pintado depois de Hogarth ter ficado preso na França por suspeita de ser um espião inglês, o quadro é uma crítica do pintor à França. Ele retrata uma cena em Calais, porto francês mais próximo da Inglaterra, e mostra os franceses babando pelo pedaço de carne que vai virar refeição no Inn (pub da época) inglês da cidade. Um açougueiro cercado de soldados franceses com aparência triste é retratado no centro do quadro carregando um grande pedaço de carne enquanto um religioso bem acima do peso olha com cara de feliz para o que vai se tornar o almoço dos britânicos em território francês.

Ouça abaixo uma versão cantada da canção

Dez mandamentos do pub

IMG_4190[1]A revista Time Out de Londres, especializada em programação de lazer, fez uma edição inteira dedicada aos pubs ingleses. Em sua última página, a revista criou uma lista de dez mandamentos do pub, que são resumidas abaixo.

1 – Não usarás o celular à mesa
Pub não é lugar de ficar trocando sms, de usar Facebook ou Twitter.

2 – Não mencionarás o metrô
Não se fala de transporte público no bar.

3 – Não empurrarás para chegar perto do bar
Todo bom inglês espera sua vez de ser atendido. Nada de furar fila para pegar bebida primeiro.

4 – Não desfilarás ideias
Pub não é lugar de brainstorm.

5 – Não acreditarás na moda
Um bom pub é um bom pub e não depende de estar na moda, ou de buscar novidades.

6 – Não usarás o nome do pub em vão
Todo nome de pub deve ter um animal, uma personalidade da Família Real já morta, ou uma ferramente arbitrária.

7 – Não terás jogo de perguntas nos finais de semana
O Pub Quiz, popular jogo de perguntas e respostas, deve acontecer somente no começo da semana.

8 – Não misturarás bebidas
Pubs não servem coquetéis. Nenhum pub deve servir bebidas misturando mais de três ingredientes.

9 – Honrarás teu salgadinho
Sua refeição noturna no pub vai ser feita apenas de salgadinhos. Valorize-os.

10 – Não irás embora
Tudo Londres fica longe, portanto não invente de sair do pub, que é o lugar ideal para ficar a noite inteira.

Para a lista detalhada, em inglês, clique aqui.